quarta-feira, 18 de agosto de 2010

MAGOITO - HOMEM

Aviso a quem me lê! Com a devida autorização do autor, o meu filho, transcrevo um texto dele, escrito há uns tempos, que faz parte de um conjunto de memórias que ele tem deste local, onde eu continuo a refugiar-me, perto da praia do Magoito, a praia sobre a qual escrevi no post de ontem.

As *** que aparecem em duas palavras do texto, são da minha autoria, estão escritas em português vernáculo no texto original.
Será que ele me vai ostracizar por isso?



"Passei os Verões da minha adolescência numa aldeia próxima do Magoito, pequena localidade estival a sul da Ericeira e próxima de Sintra. Facto pouco conhecido, ou talvez seja mesmo um mito campestre, é que Salazar tinha lá uma casa de férias, que ainda existe, completa com uma pequena capela e tudo.
Para um rapazote citadino como eu, o contraste não podia ser maior. A princípio parecia que no Magoito não havia nada para fazer e que a estranha decisão dos meus pais em abandonarem o Algarve e o sul de Espanha em favor do enfado saloio era uma crueldade absolutamente desnecessária. Era o meu Gulag, numa altura em que nem sabia que os Gulags existiam.
A coisa mais emocionante que por lá havia era um casal que vivia junto sem ser casado. Pensei que iria passar o Verão à beira estrada a contar os tractores a circular devagar, mas a pouco e pouco comecei a adaptar-me e a descobrir os prazeres do campo.
Após um workshop instantâneo, com uns moços nativos, aprendi a “andar à chinchada”. Não se trata de um passo de dança, mas sim de pequenos furtos de fruta, em especial, uvas e melancia. De quando em vez, quando o dono do terreno visado dava pela nossa presença, a coisa tornava-se deveras emocionante. Não era preciso bungee jumping, aquilo dava uma descarga de adrenalina pura e dura e nem era muito perigoso. O pior que aconteceu foi o “Ti” Tomás ter partido a cabeça do Afonso com o cabo de uma enxada. O Afonso chorou que nem uma Madalena, mas nem precisou de levar pontos. Numa idade em que o número de pontos era directamente proporcional à importância social da pessoa, escusado será dizer que nunca mais falámos com o Afonso. Anos mais tarde encontrei-o já toxicodependente e fiquei a matutar se, de alguma forma, poderia ter uma quota parte de responsabilidade no sucedido.
Foi lá que amei a minha primeira bicicleta “pasteleira”. Usava-a para ir a todo lado, éramos inseparáveis e até lhe chamava “A Tornado” pois na altura era um admirador incondicional do Zorro. Chegava a fazer os 7 quilómetros que me separavam de Sintra só para ir até às traseiras da Piriquita e esperar que me dessem travesseiros, quentinhos e grátis. Uma vez que não tinha licença, passava a vida a fugir à GNR. Tive muita sorte em nunca ser apanhado, as estórias de horror de sevícias às mãos destes agentes da autoridade abundavam e eu não quereria descobrir da forma mais dolorosa se eram, ou não, verdadeiras.
Outro grande amor foi a espingarda de pressão de ar que o meu avô materno me emprestou para sempre. A fiel “Flóber” como ele lhe chamava. Com ela chacinava candeeiros públicos, garrafas vazias e latas de Coca-Cola. Com ela fui à minha primeira “caçada” em grupo. Depois de horas de espera por pardais mais inteligentes do que todos nós em conjunto, desconfortavelmente sentados em pedras e parcamente camuflados pela vegetação natural, o Mané aborreceu-se e desatou aos tiros ao Zico por este ter tossido. O Pipo entusiasmou-se com a coisa e foi um festival de chumbinhos a zunir no pinhal.
Foi nesse dia que me fiz um homem. Levei um tiro à queima-roupa na coxa direita que graças à ganga não penetrou a carne. Doeu-me como o c******. Não há outra palavra, vernácula ou não, para descrever o dilacerante contacto entre a minha pele de menino bem e o pequeno projéctil voador. Eu, que já tinha sido circuncidado a sangue frio, dois anos antes, e que achava conseguir suportar todo o tipo de dor física possível e imaginária, tive de cerrar os dentes até não sentir o maxilar, fechar os punhos cravando as unhas nas palmas das mãos e suster a respiração durante largos segundos, para logo de seguida libertar o “AAAHHHH!!” mais aterrador que alguma vez ouvi da vida, que à falta de melhor, teve o condão de assustar todos os pardais num raio de um quilómetro, e não eram poucos.
Depois, não tugi nem mugi. Contive as lágrimas e olhei para o Mané, o atirador fortuito, que tremia que nem varas verdes e choramingava “P., por favor, não contes ao meu pai, desculpa, desculpa, não lhe contes, não lhe vais contar, pois não?”. Nem lhe respondi, virei as costas, entreguei a minha Flóber ao Zico com instruções para zelar por ela como se da sua própria vida se tratasse e arrastei-me de perna às costas, durante três longos quilómetros e meio de caminhos de cabras ladeados por muros de pedras manualmente empilhadas, até São João das Lampas onde ficava a farmácia mais próxima.
No dia seguinte era o líder do grupo. Sem ter tido de levar um único ponto mas com a enorme vantagem de ser a única pessoa no mundo que eles conheciam que já tinha levado um tiro. A minha primeira medida foi escorraçar o Mané, não por me ter dado um tiro, nem sequer por ter desatado a chorar, mas por se ter preocupado em primeiro lugar com as consequências que o evento teria para ele, em detrimento do meu estado de saúde. Isso e ter, sequer, colocado a possibilidade de eu poder ser um bufo, um chibo, um queixinhas da pior espécie. Até aí éramos irmãos, tínhamos cortado dedos e feito um juramento sagrado com gotas de sangue. A partir daí nunca mais lhe falei.

*****
Em miúdo cruzei-me, posteriormente, várias vezes com ele naqueles arrabaldes de nenhures; fixava-o sempre nos olhos, mas nada tinha a dizer. Em adulto não tornei a encontrá-lo em carne e osso, embora o veja ciclicamente na televisão pois é administrador de uma grande empresa do ramo dos vinhos. Como a minha mãe sempre me disse: “A classe não se compra, ou se tem ou nada a fazer”. Tens toda a razão mamã. E digo-te mais: “Os c****** no sítio também não, ou estão lá, ou podes esquecer”.
"

20 comentários:

  1. Minha querida
    gostei muito do texto do teu filho, pois fez-me lembrar as histórias dos meus filhos que também andavam sempre por esses lados, e como eram escoteiros também iam à Periquita pedir os travesseiros que eles davam nas traseiras.
    O teu filho pelo texto deve ser uma PESSOA, como deve ser.
    Deixo beijinhos e tudo de bom para ele.
    Sonhadora

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  2. Milhares de quilometros nos separam, Maria Teresa e, no entanto, ao ler a brilhante descrição de seu pupilo (que já deve ter-lhe agraciado com netos), percebo a similaridade das travessuras infantis.
    Até parece que foram afloradas passagens de minha vivência, no tempo das calças curtas.
    Como é bom podermos usufruir de nossa memória.
    Abraço.

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  3. Maria Teresa, quem sai aos seus, não degenera. Tem no seu filho um óptimo seguidor, nestas lides da escrita. Quanto ao texto, revi-me no feminino, nas aventuras descritas.
    Beijinhos, minha querida.

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  4. Gostei da história, da escrita e do "FINAL"!
    xx

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  5. Este texto é muito bom, gostei muito :)

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  6. Maria Teresa
    Pode ter orgulho no seu filho!
    Bela e edificante história esta.
    Ahhh, a foto é maravilhosa!
    Parabéns pela escolha.
    Bjs
    G.J.

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  7. Querida Amiga

    Adorei o texto do "...inho".
    Também eu andei à chinchada nos meus tempos de menina e embora não tivesse levado nenhuma "chumbada" tenho uma situação semelhante com uma pedrada na cabeça; não me arrastei até á farmácia, mas fui até aos Bombeiros que ficavam mais ou menos à mesma distância e quando me disseram que tinha que levar pontos, que o melhor era levarem-me para o hospital, fugi a "sete patas".
    Nem imagina o quanto me estou a rir com a situação, não da dor do "pobre" rapaz mas do remate ao seu comentário.
    beijinhos
    Fátima Lourenço

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  8. Acho que um blog do teu filho seria um grande sucesso; mas com os vernáculos todos...
    Muito bem escrito.

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  9. Além de senhor de uma voz maravilhosa, tem ainda a mais valia de ser um excelente contador de histórias.

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  10. maria teresa, vou fazer-te uma confidência. Quando sou confrontada com posts muito longos, raramente, mas muito raramente os leio até ao fim. Mas este escrito pelo teu filho, li-o, voltei atrás, reli, "vivi-o", saboriei-o, como que fui conduzida pela sua mão através de lugares, situações, vivências, estados de alma. Não lhe dou os Parabéns porque desnecessários, peço-lhe, isso sim, que continue a escrever.
    Obrigada por teres partilhado este pedaço de vida, de recordações, dos tempos em que a vida é vista/vivida de uma outra forma.
    Abraço para o autor, Beijinho SEM embrulho para a mãe.

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  11. Olá. Acompanho este blog mas não tenho comentado muito.
    Não resisto a comentar hoje para dizer que são textos como este que me fazem perder algum tempo pela blogosfera.
    Parabéns.

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  12. pedaços de vida escritos com tanta emoção que nos predem até ao fim...e que fim!!!
    parabéns ao filho que escreve tão bem como a mãe
    um beijo

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  13. Muito gira a história...Em adolescente também lá passei férias com amigos. Íamos de combioio até Sintra, de autocarro e os últimos kilometros, a penates claro!
    Bjs

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  14. upps, acabei de me lembrar do nome da praia para onde íamos, para ir ao mar. Samarra. poderá ser?
    Bjs

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  15. Na verdade e ainda que não pareça, considerando o meu ar grave e sisudo, :-) também tive as minhas aventuras com "Flóberes",ainda que na maior parte das vezes usasse mais a fisga. Aliás a fisga era a arma de bolso que me acompanhava sempre. Um dia só não fiquei cego porque não teve mesmo de ser, valeu-me o ditado:"ao menino e ao borracho..."
    Também andei à chincha ou chinchada, mas nessas aventuras eu ficava sempre a guardar a rectaguarda das tropas, vá-se lá saber a razão... Miúfa, caguga, medo? Nem pensar! Acontece que eu era uma "figura" muito conhecida e fácilmente reconhecível e corria mais riscos de represálias que o resto da tropa (ou trupe se quiseres).
    Agora digo-te uma coisa: o teu "miúdo" tem jeito. "Faz-se"! E eu percebi agora donde te vem o jeito para a escrita. :-)))

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  16. Quem sai aos seus....

    Parabéns!

    Sabe tive ou tenho uns primos (já alguns anos que não sei nada deles) que desde sempre passaram ou passam férias no Magoito! Também a minha sogra e familia dela passaram férias durante uns anos férias no Magoito...quem sabe ainda conheceu alguns deles!

    jinhos :)

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  17. A TODOS OS QUE POR ESTE POST "PASSARAM" MUITO OBRIGADA!
    ABSTIVE-ME DE COMENTAR CADA UM DE VÓS, PELA SIMPLES RAZÃO DO TEXTO NÂO SER MEU...MAS CONFESSO QUE SOU UMA MÃE MUITO ORGULHOSA DOS MEUS FILHOS, ALIÁS COMO TODAS AS MÃES...
    BEIJINHOS EMBRULHADOS PARA TODOS VÓS!!!!!
    BEM-HAJAM!

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