quarta-feira, 30 de setembro de 2009

ACASO

Domingo saí da calmaria desta aldeia, onde se situa o meu Refúgio, perto do mar e da serra e chamada pelo meu dever de cidadã, fui até Lisboa, . É raro passar um domingo na capital, sentindo necessidade de aproveitar utilmente o tempo à minha disposição, fui com o meu filho mais velho, à Feira de Discos que está a decorrer no Centro Comercial Vasco da Gama. Encontrei lá ,para além de milhares de autênticas relíquias do passado, ambicionadas por muitos coleccionadores, um alfarrabista. Não resisti! Com livros, sem nunca terem sido lidos,obras saídas há pouco, a 5euros cada, perdi a cabeça e abri os cordões à bolsa. Entre os adquiridos trouxe um de poesia de Jorge Marcel, poeta que me era totalmente desconhecido, para minha surpresa, o livro tinha e tem numa página dobrada num poema que vou transcrever, as restantes páginas estavam, já não estão, como devem ter saído da gráfica.
O porquê de transcrever este poema? Ele traduz o que eu andava a pensar registar por escrito, mas não encontrava as palavras adequadas, o poeta sem o saber, vai falar por mim.

Partirei sem desvendar

"Partirei sem desvendar
o sabor da tua boca
do outro teu por dentro o todo outro
tão diverso
tão murmurado que por fora és
partirei invivida
amigo meu por fora sem saber
se o que disseste foi só imaginar-te
apenas com a ti imaginar
o só o outro em ti
diverso ao qual do quando és comigo
no sem me dar as mãos
e o sumo
e o corpo
o seu longo dizer e o muito mais
que na sensata lâmina da luz
sensato actuado actuas
assim de sombra inútil partirei
inconhecendo
de ti a inviável promessa
sequer imprometida
inavegável sequer ."

Seria o ACASO que me levou até este poema, este poeta, esta feira, este local,...?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

MULTILEMAS

Acordei com tanta vontade de preencher bem o dia de hoje que fiquei, quase uma hora na caminha, a pensar nas imensas hipóteses de tarefas.

Vou pintar as paredes do meu quarto?
Vou limpar o pó da sala de jantar?
Vou arrumar a gaveta de cima da cómoda que está numa bagunça total?
Vou arrumar a arrecadação?
Vou arrumar a arca do jardim?
Vou ler para o jardim aproveitando o lindo sol que está a descoberto?
Vou ler para a esplanada do café da aldeia?
Vou até Lisboa ao encontro de alguma das minhas amigas?
Vou ao cinema?
Vou almoçar fora?
Vou telefonar à Cristina e ouvir uma dissertação sem fim sobre a tese de doutoramento que está a elaborar?
Vou mandar um e-mail à Violeta a agradecer os livros que enviou aos meus netos?
Vou escrever à Fátima e dar-lhe respostas às perguntas feitas pelo Natal?
Vou enviar uma catadupa de e-mails, com uma panóplia de assuntos, alguns dos quais de qualidade duvidosa, só para irritar alguém?
Vou acabar o bordado de uns guardanapos que deviam estar prontos há dois anos?
Vou ficar refastelada na minha sala a ler e a ouvir música?
Vou ficar todo o dia em meditação profunda?
..........................................................................

A escolha é tanta que até já estou cansada de tanto pensar.
Ufa! Mas que trabalheira!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DESPERTAR

Hoje acordei assim! Lindérrima, não vêem? Apaixonei-me pelo meu próprio reflexo. Sinto-me como um Adónis no feminino.
Não se assustem, nem fujam, sou eu mesma, embora um pouco admirada pelo facto da fotógrafa ter desmaiado após ter-me tirado uma foto, a que vai aqui documentada.
Acordo sempre bem disposta! Mas não consigo descortinar porque é que não desperto com aquele ar glamoroso das estrelas de cinema, as quais após uma fantástica noite de amor, estão perfeitamente maquilhadas e têm uma penteado que me faz roer as unhas até ao sabugo.

Conseguem explicar-me o que é que elas têm mais do que eu? Eu que até durmo como, não com, um anjo ou será uma "anja"?

domingo, 27 de setembro de 2009

DOÇURA OU DIABRURA I

Faça a seguinte experiência: pergunte agora mesmo, seja a quem for, o que é o sexo.
Esse alguém foi capaz de o definir?
É capaz de "o" definir?

sábado, 26 de setembro de 2009

NEM CARA, NEM COROA

Quando se gira uma moeda, como se de um pião se tratasse, existem probabilidades de ela parar apoiada na sua espessura, não sai cara nem coroa. É este esquinar que eu procuro no ser real e no ser imaginário que perturba a lógica do meu pensamento.
O ser imaginário é culto, educado, gentil, orgulhoso, rezingão, teimoso, sedutor, idealista, conservador, leal, introvertido, magoado, com um sentido de humor muito pessoal que encanta e faz sorrir. O ser real é grosseiro, voyeur, manipulador, dissimulado, agressivo, cobarde, perigosamente introvertido, cruel e as provas da sua cultura são muito trabalhadas, muito coladas de escritos já elaborados por terceiros. A descrição do primeiro é-me ditada pelo coração, a descrição do segundo pela razão.
Não quero aceitar nem uma nem outra, quero acreditar no esquinar da moeda. Preciso de acreditar no esquinar da moeda!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

LEMBRANÇAS DO MEU AMOR

Uma certa paz invadiu-me, apossou-se de mim e isso dá-me um prazer que não sei descrever. É noite lá fora, oiço o ladrar dos cães, aqui dentro nesta sala do meu Refúgio, com muitas velas acesas (sempre tive uma grande atracção por velas), ouvindo Divenire de Ludovico Einaudi, num ambiente de paz e conforto, recordando épocas passadas em que nada parecia poder perturbar o amor que me envolvia.
O que é o AMOR? Não sei! Só sei o que senti pelo pai dos meus filhos, pelo meu homem, o homem que nos últimos dezoito anos me tornou tão infeliz. Estou saudosa do que fomos um para o outro, mas a sua "amante", uma doença do foro psíquico, foi mais poderosa do que eu.
Apaixonei-me por ser gentil, ter um humor muito subtil, ser reservado, ter umas mãos lindas e uns olhos límpidos que deixavam ver através deles. Senti que era adorada e admirada, deixei-me adorar e devolvi essa adoração. Com ele conheci o prazer do sexo, de tal modo que ainda hoje penso que só voltaria a envolver-me sexualmente com outro homem se sentisse algo semelhante ao que senti pelo João.
Os horários dele não eram muito fixos mas quando estava prestes a chegar eu sentia-o, que sensação tão maravilhosa era o seu abraço, o seu beijo de chegada, o seu cheiro, o roçar da sua barba, o seu bafo no meu pescoço, a sua boca de lábios carnudos, as suas mãos que tão bem sabiam acariciar. No dia a dia, a troca de olhares que fazia surgir um sorriso nos lábios, a cumplicidade nos toques discretos ao passarmos um pelo outro, o adivinharmos o que o outro ia dizer...Tudo sabia a golfadas de felicidade, de bem-estar! Sob forte chuvada, debaixo de um único chapéu, como era saboroso sentir o seu corpo bem juntinho ao meu e um beijo rápido para não ser observado pelos outros transeuntes. Em público sempre fomos parcos nas provas de afecto.
Corrermos lado a lado e eu sempre mais lesta, ultrapassando-o, virando-me para trás, correndo de costas, ele gritando : "és louca, estás ensinando o caminho ao diabo, não o tentes se não ainda te magoas..."
Fazermos amor ao cair da tarde, adormecermos e acordarmos a meio da noite, com fome de comida por não termos jantado, improvisá-la e rirmos, rirmos descontrolados por trocarmos tempos....Olharmo-nos e rirmo-nos sem saber porquê.
Observarmo-nos ao espelho com uma luz difusa e acharmo-nos lindos....
Vermos televisão aconchegadinhos, por vezes com a cabeça repousada no colo do outro, afagando os cabelos. As cócegas que eu tinha, as fugas que fazia para fugir delas. Como se ria quando eu corava, com as palavras ou convites, mais ousados, que me sussurrava ao ouvido. Como se divertia por me ver corar.
Como me acariciava e beijava o ventre, falando com os filhos ainda por nascer.
Como era bom passearmos pelo campo sentindo o cheiro da terra molhada e falando nisso.
Quantas vezes, e já com filhos, durante o dia pensava nele e desejava o momento em que chegaria. E quando chegava bravo, cheio de problemas, prestes a explodir, e eu lhe dizia com um sorriso nos lábios e os olhos arregalados: "Conta até 3! Não! É melhor contares até 10!". Ele sorria e juntinhos no quarto ou na sala ouvia atentamente as suas queixas e tentava minimizar os seus problemas ou ajudá-lo a encontrar um caminho para a busca de solução.
O dormir de cadeirinha e acordar na mesma posição ainda que voltados para o outro lado da cama. O desejo a meio da noite que levava um ou outro a perguntar: "Estás acordado/a?" Ambos sempre tão disponíveis!
E quando nos zangávamos, como era maravilhosa a reconciliação! O conhecimento profundo do corpo do outro, conhecimento feito a pouco e pouco, num passo a passo lento no tempo.
O início sereno do jogo amoroso, as palavras sussurradas, as risadinhas, o crescendo no avanço das carícias e o deleite.
O após deleite !!!!!!
Muito mais poderia dizer sobre o que os meus sentidos gravaram mas não penso ser aqui o local, nem o tempo certo.
De uma coisa eu tenho a certeza: como pessoas éramos o dia e a noite. Eu alegre, bem disposta, positiva, extrovertida com facilidade em fazer amigos e conhecidos. Ele triste, negativo, rezingão, introvertido e com poucos amigos.
Que feliz que fui por ter partilhado parte da minha vida com o João, meu marido, meu homem, meu amante, meu companheiro, meu cúmplice e meu amigo.

O que senti e descrevi foi AMOR? Alguém sabe responder-me?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

DESPEDIDA

DESPEDIDA

Andando a arrumar papéis, o que é sempre um grande frete, encontrei o seguinte poema, escrito num pedaço de papel com a minha letra, mas sem indicação do autor ou autora:
Poema de despedida
Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tenho
o mago invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
A memória trai-nos, não me lembro de o ter registado mas hoje ao lê-lo, tal como deve ter acontecido num tempo passado, sentiu-o no meu profundo EU.