segunda-feira, 21 de março de 2011

INSONSO

Para que não fiquem “suspensos” e com muita vontade de saberem até onde me fui procurar, aqui vai um pequeno apontamento muito insonso (não vão encontrar sal, açúcar ou pimenta, na maioria dos dias da fuga estes condimentos ausentaram-se, a culpa foi da crise).
Fugi “cá dentro”, a cidade do Porto esperava por mim e eu precisava dela para palco do meu reencontro. Pela segunda vez, numa vida em que já palmilhei muitos “caminhos”, fui sozinha a esta cidade. Fui de comboio (o Carapau para peixe, vê muitíssimo bem) em classe turística, beneficiando do desconto que têm direito os seniors. Sim, sou sénior! E tenho uma vaga impressão de que gosto da palavra (???).
Chegada à estação da Campanhã, não fiquei surpreendida (porque seria?) por não ter sido recebida com a pompa que a ocasião merecia, mesmo assim aguardei meia hora, que me impus, pela chegada da comitiva "acertada", a qual atacada por um vírus muito conveniente, tinha e teve durante todo o dia, os contactos possíveis inoperacionais.
Fiquei alojada sozinha, como aliás estava programado, no antigo Hotel Batalha de boa memória, hoje Mercure de seu nome, situado na praça que lhe deu o nome “primeiro”, juntinho à rua de Santa Catarina. Dele tinha uma boa recordação que quero preservar e outras menos, cheias de barbas brancas que precisam de ser arrancadas pêlo a pêlo (talvez um dia…quem sabe? Eu estou preparada, as barbas estarão?)
Nunca me senti só nem sozinha, durante o almoço do dia da minha chegada, tive a companhia de um amigo a quem telefonei, tipo S.O.S., para lhe pedir de empréstimo os ouvidos. Gentilmente ouviu a minha diatribe e fez-me caminhar a pé para espairecer…Foi excelente e serena essa tarde!
Soube aproveitar bem o tempo que por lá passeei, mas vou pulá-lo e cair no sábado dia 12, dia de má ou boa memória, dependendo do ângulo em que foi visto, por tudo aquilo que me veio a acontecer. Logo pela manhã, ao sair do hotel, tropeço literalmente com uma horda de elementos da comunicação social e de mirones (como sou pouco modesta ainda pensei, cá está a minha recepção, atrasada mas chegou!).
Sou um membro da geração à rasca (odeio o termo), mas detesto multidões! Fugi do local! E fiz algo que não sonhava sequer fazer, subi a pé com bastante prazer e interesse, toda a rua de Santa Catarina, observando as suas lojas e os seus passantes. A partir de uma dada zona, comecei a notar uma diferença enorme nas habitações e nos habitantes, pensei e interroguei-me: fui teletransportada (de vez em quando tenho alguns delírios), estou algures perdida no “espaço”, volto para trás, avanço, que faço?
Não sou sénior (estou a amar a designação) de me amedrontar facilmente, avancei debaixo de uma situação climatéria adversa, choviam “cats and dogs” (eu que sou uma naba a inglês lembrei-me desta expressão) e cheguei à Praça Marquês de Pombal (não fazia a mínima ideia que no Porto havia uma praça com este nome).
Levava “leitura” (outra tara minha, ando sempre com um livro no caos que são as minhas enormes malas de mão), procurei um local onde pudesse estar uns tempinhos comodamente sentada sem ninguém a incomodar-me e ei-lo …



Foto via satélite (tirei uma no local, com telemóvel, mas ainda não sei enviá-la para o computador)

um café de nome Satélite, no rés-do-chão de um prédio bastante degradado, idêntico no seu aspecto, aos que num passado não muito distante, existiam em todos os bairros das cidades portuguesas. Bastante espaçoso, com um só empregado que me pareceu ser o dono e um quiosque de jornais. Lá dentro só homens (poucos), lendo “matinais e desportivos” e saboreando o seu cafezinho da manhã, parecendo que todos se conheciam.

Entrei, e era esperada por vários pares de olhos vidrados em mim (senti-me uma ET que tinha acabado de chegar a um local pouco habituado a receber exemplares do sexo feminino e desconhecido). Acomodei-me num cantinho, por baixo do televisor, colocado bem alto na parede. Fiquei com uma vista panorâmica para a sala e para a rua, toda a minha plateia estava bem visível e na frente dos meus olhos, (ainda pensei fazer um número dos meus que não posso relatar aqui)… pelas caras de quem entrou e saiu observei a estupefacção de verem “uma sénior” sozinha, lendo e saboreando um chá, sentada numa mesa que ninguém deve querer e num café quase deserto.
Como gostava de saber ler mentes…

O tempo não perdoa, começaram a surgir algumas mesas preparadas para receber comensais para almoçarem, era hora de me retirar e assim fiz, depois…isso já foi outra história, uma história com muito tempero…

sexta-feira, 18 de março de 2011

INEVITÁVEL

No dia em que o viu pela primeira vez, “sentiu-o” como o idealizara durante mais de um ano nos seus sonhos de mulher renascida para voltar a amar…
Entre eles existia um mar revolto quase indomável para ser navegável. Os barcos, onde a vida de cada um viajava, eram tripulados por marinheiros provenientes de escolas de marear com procedimentos muito diferentes…

Não conseguiram alcançar o porto de abrigo almejado! Antes de partirem para águas mais calmas, algures no horizonte do imaginário de cada um, havia já uma despedida anunciada…
Ela disse adeus não “àquele” que tinha conhecido, que amava, mas a “outro”, outro que a deixou profundamente infeliz, tal a falta de vontade de viver visível na sua face, onde se espelhava uma tristeza profunda, uma aceitação do inevitável sem luta, uma fácies a roçar o patético…

Pelo rosto, ela permitiu que durante um tempo intemporal, escorressem rios de água salgada e, com uma força que pensava não possuir, ergueu-se com dignidade, pronta para a luta, pronta para enfrentar todos os medos, todos os obstáculos que se têm oposto à sua felicidade.

Caminhando com passadas bem assentes no terreno que pisava e pisa, resistiu à tentação de olhar para trás…

quarta-feira, 9 de março de 2011

INTERVALO

Já tardava…mas chegou! Chegou a minha vontade incontrolável de partir, partir por uns tempos para outros lugares, ver outra cidade, outras gentes, encontrar amigos e desconhecidos…
E tal como diz Torga preciso de me procurar e encontrar…

Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga, in 'Diário XII'



São apenas uns dias! Até breve...

PARA TODOS VÓS, DEIXO UMA QUANTIDADE INFINITA DE BEIJINHOS EMBRULHADOS!
Maria Teresa

terça-feira, 8 de março de 2011

SER MULHER

Pintura de Kelly Thompson (neozelandesa)


SER MULHER É:

-uma dádiva
-um estado de espírito
-sentir crescer um novo ser no ventre
-tornar-se cinderela à “meia-noite”
-ter um colo onde pode albergar o mundo
-encontrar “flores” em terrenos áridos
-descobrir uma “fonte” no meio do deserto
-chorar de alegria
-sorrir quando a alma chora
-saber cair
-saber levantar-se
-saber “sarar” feridas
-aceitar o passado
-sonhar com o futuro
-ver o sol num dia chuvoso
(…)

GOSTO DE SER MULHER!

DESAFIO:
Por favor, completem a lista...

domingo, 6 de março de 2011

CARNAVAL

A época carnavalesca não me agrada particularmente, fazendo esta afirmação parece que estou em contradição com aquilo que publiquei no Carnaval do ano passado. Tenho uma justificação que aqueles que me vão conhecendo já sabem, fi-lo para gaúdio dos meus netos ( sendo mais exacta faço-o nos últimos 7 anos), não nego que acabo por me divertir bastante.
Este ano, mesmo com esse tipo de incentivo, não me sinto com força anímica para entrar em folia. Mas a época existe no calendário, não a vou omitir, não sabendo bem porquê, talvez porque me tenha apetecido mostrar-vos as obras de arte que junto …


1.

Óleo de Karol Bak (polaco) *

2.



Aguarela de Paul Jackson (americano) *

3.

Aguarela de Ann Gates Fiser (americana) *

4.

Tela de Victor Crisostomo (peruano) *





Agora um DESAFIO:
1. Supondo que me mascarava, em qual das retratadas pensam que eu gostaria de me transformar ?
2. Ou qual delas cada um de vós prefere como base para uma máscara?

*Como já vem sendo hábito, se quiserem saber mais sobre estes pintores, visitem o blogue do
Rolando Palma , para que gosta de boa pintura este espaço é um colírio para os olhos.

sábado, 5 de março de 2011

DOÇURA OU DIABRURA LXXIV

Mais uma semana que se foi! Algumas intempéries emotivas em contraposição à quietude física alimentaram os meus dias…terminei tarefas, iniciei outras…nada de muito diferente de uma rotina, mais ou menos estabelecida, que não procuro.
Chegámos a um fim-de-semana que inicia uma quadra excelente para os foliões. Ao contrário do que pode parecer nunca gostei dela (tirando os bailes a que num passado já muito distante ia e mantinha-me toda a noite a dançar) nos últimos anos “entrei” nela, por amor às minhas crianças e até me diverti bastante.
É tempo de “antena" da Doçura ou Diabrura hei-la:

Pintura a óleo de Robert Doesburg (retirada do blogue do Rolando Palma)



Poema sem nome

És mais um que passaste
E atrás de ti nada deixaste,
Que uma triste canção de treva
E de mentira,
Qual fantasma que na noite
Mais uma pedra atira.
Na noite te encontrei
E na noite te perdi.
Infiltraste a minha carne
De carícias, nada senti!
Essa ânsia que existia em ti
De me sentires mulher,
De desvendares o que existia
No recôndido do meu ser.
Sou agora um ímpeto de dor
Na imensidade calma
E tu, és mais um corpo que toquei
Com voz, sem alma!
Maria de Deus Melo, in Raízes do Ser (Universitária Editora, pág.49)



NESTE FIM-DE-SEMANA, PARA ALGUNS PROLONGADO, DIVIRTAM-SE…NADA DE EXCESSOS! FAÇAM MUITO MAIS DO QUE EU VOU FAZER!!!!

quarta-feira, 2 de março de 2011

118 ANOS

Faz hoje 118 anos que nasceu a MULHER que mais marcou a minha vida, com ela aprendi a ser “pessoa”, a minha AVÓ materna (no entanto, não esqueço o quanto a minha mãe e a minha tia-avó Maria Teresa também foram muito importantes).
Existem muito poucas fotografias dela, não gostava de ser fotografada e a minha mãe, nunca entendi bem porquê, pela altura do seu falecimento rasgou quase todas, as que sobraram são muito antigas.

A minha avó é a jovem da direita, a outra é uma das suas 4 irmãs (a minha tia-avó Felismina que faleceu muito jovem).

Lembro-me muitas vezes dela! Relembro amiúde os provérbios e as citações que gostava de usar… usava e abusava, tenho que reconhecer, fazia-me pensar nos subentendidos dos mesmos, esmiuçava-os e isso só me trouxe vantagens.
Afirmo, sem perigo de me enganar, que ela não se importava de fazer papel de “idiota”, sendo muito inteligente, quando os idiotas se exibiam pensando que eram inteligentes.
Foi a primeira pessoa a quem contei,em cumplicidade, que desconfiava que estava grávida…chorou de alegria e durante uns tempos manteve o “segredo” até dos meus pais ( a minha mãe quando soube teve uma “birra”, ficou cheia de ciúmes).
Não era dada a muitas provas de afecto, não nos lambuzava com beijos como fazia a minha mãe, as suas provas de amor revelavam-se nas atitudes que tinha para com quem amava. Era muito respeitada, uma excelente ouvinte e uma óptima conselheira, junto da família, dos amigos e dos conhecidos.
Teve uma vida emocionalmente muito dolorosa, ficou viúva muito nova, por volta dos trinta anos, com três filhos e um enteado para criar, tinha um diploma de professora primária mas não se serviu dele, era imprescindível a sua presença em casa, tinha jóias e essas “foram-se”, nunca se lamentou, nem sequer falava nisso, aliás nunca a ouvi lamentar-se do que quer que fosse.
Perdeu uma filha poucos meses antes de enviuvar e mais dois já na casa dos vinte anos, em menos de um ano.
Era uma guerreira mas sem espalhafato!
Partiu na altura que tinha que partir! Mas primeiro realizou um grande sonho da sua vida, ajudou a criar o menino dos seus olhos, o primeiro bisneto…
Tanto, mas tanto, que podia dizer sobre ela e para ela...


Mas só me ocorre…
continuo a AMAR-TE minha querida!
PARABÉNS!