Fugi “cá dentro”, a cidade do Porto esperava por mim e eu precisava dela para palco do meu reencontro. Pela segunda vez, numa vida em que já palmilhei muitos “caminhos”, fui sozinha a esta cidade. Fui de comboio (o Carapau para peixe, vê muitíssimo bem) em classe turística, beneficiando do desconto que têm direito os seniors. Sim, sou sénior! E tenho uma vaga impressão de que gosto da palavra (???).
Chegada à estação da Campanhã, não fiquei surpreendida (porque seria?) por não ter sido recebida com a pompa que a ocasião merecia, mesmo assim aguardei meia hora, que me impus, pela chegada da comitiva "acertada", a qual atacada por um vírus muito conveniente, tinha e teve durante todo o dia, os contactos possíveis inoperacionais.
Fiquei alojada sozinha, como aliás estava programado, no antigo Hotel Batalha de boa memória, hoje Mercure de seu nome, situado na praça que lhe deu o nome “primeiro”, juntinho à rua de Santa Catarina. Dele tinha uma boa recordação que quero preservar e outras menos, cheias de barbas brancas que precisam de ser arrancadas pêlo a pêlo (talvez um dia…quem sabe? Eu estou preparada, as barbas estarão?)
Nunca me senti só nem sozinha, durante o almoço do dia da minha chegada, tive a companhia de um amigo a quem telefonei, tipo S.O.S., para lhe pedir de empréstimo os ouvidos. Gentilmente ouviu a minha diatribe e fez-me caminhar a pé para espairecer…Foi excelente e serena essa tarde!
Soube aproveitar bem o tempo que por lá passeei, mas vou pulá-lo e cair no sábado dia 12, dia de má ou boa memória, dependendo do ângulo em que foi visto, por tudo aquilo que me veio a acontecer. Logo pela manhã, ao sair do hotel, tropeço literalmente com uma horda de elementos da comunicação social e de mirones (como sou pouco modesta ainda pensei, cá está a minha recepção, atrasada mas chegou!).
Sou um membro da geração à rasca (odeio o termo), mas detesto multidões! Fugi do local! E fiz algo que não sonhava sequer fazer, subi a pé com bastante prazer e interesse, toda a rua de Santa Catarina, observando as suas lojas e os seus passantes. A partir de uma dada zona, comecei a notar uma diferença enorme nas habitações e nos habitantes, pensei e interroguei-me: fui teletransportada (de vez em quando tenho alguns delírios), estou algures perdida no “espaço”, volto para trás, avanço, que faço?
Não sou sénior (estou a amar a designação) de me amedrontar facilmente, avancei debaixo de uma situação climatéria adversa, choviam “cats and dogs” (eu que sou uma naba a inglês lembrei-me desta expressão) e cheguei à Praça Marquês de Pombal (não fazia a mínima ideia que no Porto havia uma praça com este nome).
Levava “leitura” (outra tara minha, ando sempre com um livro no caos que são as minhas enormes malas de mão), procurei um local onde pudesse estar uns tempinhos comodamente sentada sem ninguém a incomodar-me e ei-lo …
Foto via satélite (tirei uma no local, com telemóvel, mas ainda não sei enviá-la para o computador)um café de nome Satélite, no rés-do-chão de um prédio bastante degradado, idêntico no seu aspecto, aos que num passado não muito distante, existiam em todos os bairros das cidades portuguesas. Bastante espaçoso, com um só empregado que me pareceu ser o dono e um quiosque de jornais. Lá dentro só homens (poucos), lendo “matinais e desportivos” e saboreando o seu cafezinho da manhã, parecendo que todos se conheciam.
Entrei, e era esperada por vários pares de olhos vidrados em mim (senti-me uma ET que tinha acabado de chegar a um local pouco habituado a receber exemplares do sexo feminino e desconhecido). Acomodei-me num cantinho, por baixo do televisor, colocado bem alto na parede. Fiquei com uma vista panorâmica para a sala e para a rua, toda a minha plateia estava bem visível e na frente dos meus olhos, (ainda pensei fazer um número dos meus que não posso relatar aqui)… pelas caras de quem entrou e saiu observei a estupefacção de verem “uma sénior” sozinha, lendo e saboreando um chá, sentada numa mesa que ninguém deve querer e num café quase deserto.
Como gostava de saber ler mentes…
O tempo não perdoa, começaram a surgir algumas mesas preparadas para receber comensais para almoçarem, era hora de me retirar e assim fiz, depois…isso já foi outra história, uma história com muito tempero…




