domingo, 27 de junho de 2010

50 000 E MAIS ALGUNS!

Desde o dia 14 de Agosto do 2009 que este blogue tem existência real. Virtualmente, para poder dar continuidade a um trabalho que tinha encetado cerca de um ano antes, foi aberto em Junho do mesmo ano. Brochura com a compilação dos textos que publiquei desde o dia 14 de Agosto de 2009 até ao dia 31 de Dezembro do mesmo ano.

No início não coloquei um contador de entradas, para ser verdadeira quem o colocou, passado um tempo, foi a Ana Rita. Sei que neste momento esse contador indica que foram dados mais de 50 000 cliques... alguns dos quais são, como não podia deixar de ser, meus.
Muitos dos que aqui comentam seguem-me desde quase o início mas poucos conhecem o porquê de enviar beijinhos a todos, por isso transcrevo o meu primeiro post:

“Há beijos e beijos... Os meus beijinhos embrulhados são as prendas sem grande valor material, mas com grande carinho que costumo dar à família e às pessoas de quem gosto, enfim... a quem AMO. Neste espaço penso enviar infinitos beijinhos embrulhados sob a forma de imagens e de palavras que exprimam o que sinto, o que penso e o que desejo. Beijinhos embrulhados!”

Os meus comentários nos últimos tempos terminam com “beijinhos sem embrulho” como consequência de uma brincadeira. E porquê? Porque um dos meus queridos comentadores fez a observação de que dava trabalho a desembrulhá-los e essa foi a resposta que achei adequada.
Chamo querido/a a todos/as porque estou numa idade em que penso que sermos carinhosos não faz mal a ninguém, … Será que aos trinta, quarenta, cinquenta anos, sentir-me-ia um pouco ridícula em fazê-lo? Não faço a mínima ideia, hoje sei que não me sinto assim e o “hoje” tem muita força para mim.
Sou uma “escrevinhadora” por prazer e enquanto for sentindo tal, vou continuar a fazê-lo, não estou cumprindo metas, nem obrigações, nem em busca de honrarias.
Gosto de desafios! Desafio-me muitas vezes, mas não permito que esse desafio se torne doloroso ou que me transforme numa pessoa agressiva, a agressividade entristece-me.
Tenho pena de ter sido “obrigada” a colocar um moderador de mensagens, principalmente pelo motivo que foi e que ainda me dói muito…
Todos os que por aqui passam e passaram me honram e honraram com a vossa visita! Estou-vos muito grata! A vossa presença, quer deixem um comentário, quer não, é motivo de muito agrado para mim.
Pessoalmente sou conhecida apenas por 5 de vós! E nesses 5 há familiares…

A TODOS A MINHA AMIZADE (embora virtual) E O MEU BEM-HAJAM!

sábado, 26 de junho de 2010

DOÇURA OU DIABRURA XXXIV

Com o Verão acabado de chegar vamos aquecer um bocadinho o corpo e a alma.

AMADO

E, por fim,
sinto os passos daquele que amo.
Ao aproximar-se ,
tudo se cala deste lado da colina-
a serpente dorme,
os alces parecem de pedra, na margem do lago.
Não digo nada àquele que amo.
Derramo as pétalas e os perfumes sobre a sua
forma altiva,
de claridade, de silêncio e bronze.
As sandálias deixam transparecer a errância
dos seus pés.
Ele respira serenamente,
ele bebe o meu vinho doce,
quando me calo.
E quando a sua mão se detém no meu ombro,
caem sobre as cidades duas estrelas puras.
É Setembro outra vez,
nas vinhas do meu amado.
De onde terá vindo?
Onde terá lançado a sua palavra,
os salmos que lhe ouvi outrora, num jardim de
frutos proibidos?
Sentar-se-á aqui, neste alpendre, aquele que amo.
Ao entardecer, iremos ao rio.
Beberei da mesma água, na concha das suas mãos.
Verei o esplendor dos seus caminhos e,
muito perto,
vénus que nunca dorme.
Velarei o sono daquele que amo.
E, como um anjo de estremecido cristal, tocarei
a leve música das suas viagens.
Já não seremos deste mundo.

José Agostinho Baptista, in QUATRO LUAS edições Assírio & Alvim

QUE O TEU FIM-DE-SEMANA SEJA AQUELE COM QUE SONHASTE!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

EL TOBOSO

Pensam que o preguiçoso do Sancho Pança levou a carta a D. Dulcineia? Não, fingiu que sim o malandro e mais, engendrou uma resposta.
Mas, um dia D. Quixote, num daqueles seus ataques de frutuosa imaginação decidiu ir até ao lugarejo onde vivia a sua amada.
(…)
-A noite está quase a chegar, antes de começar uma nova aventura tenho que pedir licença e a bênção a Dulcineia.
-Deve ser difícil conseguir vê-la e muito menos receber uma bênção, só se for pelas frestas do curral.
- Deves estar louco! Pelas frestas de um curral? Foi certamente na varanda do seu palácio real que a viste.
-Talvez! Talvez! A mim pareceu-me uma fresta! Quando eu vi D. Dulcineia o sol estava encoberto e ela devia estar a peneirar o trigo, o pó levantado, como uma nuvem, também lhe tapava o rosto…
-És um idiota! Como pode uma senhora estar a fazer trabalho de uma assalariada?

E a conversa derivou para outros assuntos a contento de Sancho.
Finalmente chegaram a Toboso, Sancho Pança, que a toda as horas levava pancada por causa das diatribes do seu amo, ficou aterrorizado, não fazia a mínima ideia onde morava D. Dulcineia…

-Sancho leva-me até ao palácio da minha amada!
-Não posso! A casa onde a vi era pequeníssima!
-Então era porque estava a descansar a sós, como é costume as princesas e as grandes damas fazerem.
-É muito tarde não devemos incomodar ninguém.
-Vamos até ao palácio, depois logo se vê! Repara naquela enorme sombra, deve ser ali!
-Está bem! Vamos então até lá mas guie-me o senhor meu amo que eu não vejo nada!
-Mas isto é a torre de uma igreja!
-Agora me lembro que a casa dessa senhora fica num beco sem saída.
-És um mentecapto! Onde é que viste que os paços reais ficam em becos sem saída?
-“Cada terra com seu uso”! Eu vou procurar por essas vielas e travessas e talvez encontre esse palácio de uma figa.
-Fala com respeito Sancho quando te referes à minha amada!
- Como é que quer que eu faça, encontrar a casa à meia-noite, se só a vi uma vez e Vossa Mercê milhares de vezes?
-Olha lá herege! Não te tenho dito todos os dias da minha vida, mil vezes por dia, que nunca vi Dulcineia, que nunca frequentei o seu palácio e que estou apaixonado apenas por aquilo que ouvi dela.
- Fiquei agora a sabê-lo! Se nunca a viu, eu ainda menos…
-NÃO PODE SER! Disseste-me que a viste peneirando o trigo e trouxeste-me a resposta à carta que por ti enviei.
- Não quebre a cabeça com isso! Sei tanto quem é D. Dulcineia como sei dar murros no céu!

(…)



A cidade de Toboso está totalmente recuperada e virada para o turismo, nela encontra-se A Casa da Dulcineia, um palácio construído no século XVI mobilado com móveis e artefactos da época. Numa zona deste palácio existe um Museu Quixotesco-Manchego, onde se podem observar algumas edições raras do romance de que tenho “andado” a falar. Algumas ruas e vielas, marcadas como sendo o imaginário percurso de D. Quixote, quando visitou Toboso, têm nomes referentes aos protagonistas do romance e algumas palavras e ditos extraídos do diálogo “aldrabado” que acima transcrevi.

Nota:
As fotografias que ilustram este texto, foram tiradas por mim, logo… é proibido dizer mal delas :):):)

terça-feira, 22 de junho de 2010

CARTA A DULCINEIA

Na Serra Morena, languidamente recostado num pinheiro, sem se preocupar em ficar com o corselete manchado de resina, D. Quixote sonhava,… mas acordado, com a sua dama e musa Dulcineia que ele nunca tinha visto nem vestida nem despida. De rompante, decidiu escrever-lhe uma carta.
Ei-la!

“Soberana e alta senhora!
O ferido do gume da ausência, e o chagado nas teias do coração, dulcíssima Dulcineia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falha.
Se tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia.
O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, de modo como eu fico por teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faz o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo.
Teu até à morte
O Cavaleiro da Triste Figura”

Tradutores: Viscondes de Castilho e de Azevedo

Nos dias de hoje a carta talvez seguisse assim:

Ó minha!
Estou para aqui sem ter nada que fazer “a modos que” resolvi escrever-te.
Estás a fazer-te um pouco cara e eu não estou para te aturar! Queres ou não curtir comigo? Ou sim ou népias! Anda por aí muita gaja, que até “chora” para andar comigo, se pensas que fico a pensar em cortar as goelas por não queres nada comigo, estás muito enganada.
Tenho na minha frente uma loirinha e um prato de caracóis, fico à espera que digas qualquer coisa, mas não demores muito que eu não tenho tempo a perder!
O Zé Vida Curtida

Desafio os meus e as minhas visitantes a "vestirem-se" de D. Quixote e a “escreverem” uma carta à bela Dulcineia! Até pode ser apenas uma frase…

A carta chegou às mãos de D. Dulcineia?
Para o saberem lêem o livro, perguntam a alguém que conheça a história ou…aguardam pelo próximo post.

Nota:
Consta que Dulcineia a dama “inventada” por Cervantes, se baseou numa dama que vivia na época, em Toboso e, por quem tinha uma certa atracção. Seu nome seria Aldonza Lorenzo, chamar-lhe-iam abreviadamente Ana, "doce Ana" (se lerem "doce Ana" rapidamente e com sotaque espanholês, soa a dolceana=dulcineia). Não consegui saber se isto é mesmo verdade, Cervantes zangou-se comigo e deixou de me falar...

A carta que transcrevi foi retirada da obra Dom Quixote de La Mancha, Mel Editores, tendo como tradutores os citados.

domingo, 20 de junho de 2010

CANSAÇO

Poucos meses depois de se terem unido pelo matrimónio o homem terno que a Maria tanto amava tornou-se um estranho, passou a ser agressivo nas palavras que lhe dirigia. Para ele nunca nada estava bem! Nunca mais ouviu um elogio por pequenino que fosse! Nunca mais ouviu uma palavra de ternura! As palavras e os gestos de sedução tinham-se esfumado como o fumo que sai por uma chaminé de uma lareira acesa, numa fria noite de inverno. Ela esforçava-se e procurava agradar-lhe, acreditava que estavam a viver uma fase passageira, mas para ele nenhuma tentativa de agrado, por mais terna e sedutora que fosse, surtia efeito. Implicava com tudo!


-Maria este ensopado está intragável! Devias esforçar-te um pouco mais, porque não vais aprender a cozinhar com a minha mãe? (Nesse dia a sogra tinha passado por casa deles e tinha-a ajudado a fazer o jantar).

-Maria hoje não puseste na mesa o meu sumo (tinham combinado que ele passaria pela loja da esquina e traria vários mantimentos que estavam em falta)

-Maria a minha máquina de barbear está fora do lugar! (Estava arrumada na prateleira antes do desodorizante em vez de estar depois)

-Maria a minha camisola verde não está no roupeiro! (Tinha-a enodoado no dia anterior à noite)

-Maria não achas que a dobra do lençol está muito larga? Caramba! Nem uma cama sabes fazer como deve de ser!

-Maria esse cabelo está nojento! (Tinha-o acabado de lavar e secar)
(…)

Não havia cumplicidade no jogo amoroso, nem sequer havia jogo…ela era apenas um recipiente para a descarga da uma premência sexual comandada pela testerona…Talvez até utilizasse outros recipientes!

Um dia chegou a casa e encontrou o vazio! Não havia sequer um ténue vestígio da Maria, nem o suave aroma do perfume que sempre tinha usado e que tinha sido ele a apresentá-lo!


Texto publicado no âmbito do desafio ESTAVA VAZIO para Fábrica de Letras



sábado, 19 de junho de 2010

DOÇURA OU DIABRURA XXXIII

Fazendo um pequeno intervalo pelo meu deambular por terras manchegas, pisadas por D. Quixote, vêm novamente à ribalta as Doçuras ou Diabruras que foram para férias há já dois longos fins-de-semana.

O beco

Esperava que tu passasses
não sabia quem eras
talvez nem se existias
mas amava-te
febrilmente
às vezes dava-te um rosto
e dizia-te coisas
de amor
sentada na pasta dos livros
sem ir à escola
esperava-te nos olhos
fixos no princípio
do beco da minha rua
até que nos passos da noite
minha mãe que saía de casa
vinha à minha procura
chorando da insensatez
hoje
que te dou um nome
chamo-te solidão
e continuo à espera
no beco da minha rua
Miguel Barbosa, in “por uma pitada de sal”

O Verão afasta-me um pouco do computador, oferece-me uma panóplia de opções de “tarefas” que me divertem, me preenchem, me rejuvenescem, …
É possível que as minhas publicações passem a ser mais espaçadas. O futuro o dirá!

PARA TODOS UM FIM-DE-SEMANA MELHOR DO QUE O MEU! O MEU TEM UM PROGRAMA EXCELENTE!!!!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PUERTO LÁPICE

Fui até Puerto Lápice pela moderna auto-estrada da Andaluzia, por esse motivo cheguei muito antes de D. Quixote que percorreu o antigo Caminho Real, ele tinha em mente, soube-o depois, ser armado cavaleiro. De acordo com a lei da cavalaria, enquanto não fosse armado cavaleiro não podia lutar contra um, e esse era um sonho que o perseguia. Nesse lugar talvez fosse possível, há (havia) uma encruzilhada, servida por muitas estalagens, havendo muitas estalagens, “há” muita gente, havendo muita gente, “há” a hipótese de se viverem muitas aventuras.
Vi-o chegar, ao anoitecer, cansado e morto de fome. Olhou para uma das estalagens, aquela que tinha à porta duas raparigas “da vida airada”(1), de imediato pensou que se tratava de um castelo e na sua mente conturbada, conseguiu ver as quatro torres com coruchéus(2) de prata reluzente, a ponte levadiça e até um fosso bastante profundo. As duas moças seriam donzelas que na frente do castelo passeavam, tomando “ares”…
Abreviando a “aventura” devo dizer-vos que o estalajadeiro se apercebeu de imediato que aquela tão despropositada figura, pertencia a um homem que não funcionava bem da tola, mas atendeu-o, servindo-lhe uns restos de comida...
Que figuraça que D. Quixote fez! Foi motivo de gargalhada geral. As moças ajudaram-no a “despir”, mas a celada (3) teve que ficar, tantos eram os nós que a seguravam.
Para comer tinha que levantar a viseira com as mãos, então como levar a comida à boca? Uma das moças ajudou-o. Dar-lhe de beber? Impossível! Mas o estalajadeiro, homem arguto e criativo, adaptou uma cana, cortou-a pelos nós, meteu-lhe na boca uma das extremidades e pela outra “enviava-lhe” o vinho.

Depois do jantar o nosso bravo aventureiro implorou ao “senhor do castelo” que o armasse cavaleiro. O bom homem, embora um pouco hesitante, acabou por anuir mas, marcou a “cerimónia da investidura” para mais tarde, pela manhãzinha.
O que fazer até essa hora gloriosa? D. Quixote decidiu que levaria a noite a “velar as armas” para tal acto, tão solene, colocou toda a parafernália de objectos que transportava sobre uma pia que por ali havia. Com a lança na mão “passeou-se” em frente à pia com os olhos sempre fixos nas suas “coisas”.
Quis o destino que por ali passasse um arrieiro que quis dar de beber aos seus animais, sem grandes cerimónias, atirou os pertences de D. Quixote para o chão. Desgraçado! Levou com a lança no cachaço! Não morreu mas ficou esticadinho nos chão…Os utensílios foram apanhados e de novo colocados sobre a pia.
Não é que outro arrieiro fez exactamente o mesmo e a cena se repetiu?
Antes que algum dos seus clientes se finasse o estalajadeiro decidiu “armá-lo” cavaleiro.
Com o livro em que assentava a palha e a cevada que vendia, “lendo-o” como quem reza uma devoa oração, levantou a mão e deu-lhe um valente calduço, e depois com a espada uma pranchada (4). Uma das “donzelas” colocou-lhe a espada à cinta e disse: “Deus faça a Vossa Mercê muito bom cavaleiro, e lhe dê ventura em lides” (sic)
Depois de “armado” cavaleiro, D. Quixote não perdeu mais tempo em Puerto Lápice: “Seria a da alvorada quando D. Quixote saiu da estalagem tão contente, tão airoso, tão alvoraçado por ver-se já armado cavaleiro, que o prazer rebentava-lhe pelas cilhas do cavalo…” (sic)

E com esta cena, eu saí de “cena” e também de Puerto Lápice, onde não há nada de interessante para se ver… a não ser o relembrar as cenas, indiscutivelmente bem descritas e ao pormenor, da investidura de D. Quixote como cavaleiro, pelo poeta, dramaturgo e romancista Miguel Cervantes.

Nota:
Esperando que Cervantes não se tenha agitado muito no túmulo com as interpretações que estou a dar à sua obra, e que até vele por mim que a estou a publicitar de borla, não resisti em usar alguns termos menos usuais, "utilizados" por ele e vulgares na época em que escreveu esta obra.
O estalajadeiro é citado no original como vendeiro, que na época teria talvez o significado de taberneiro.
(1) Expressão usada por Cervantes para denominar prostitutas.
(2) Parte mais elevada das torres
(3) Armadura defensiva da cabeça que no caso de D. Quixote era de cartão.
(4) Batida com a parte plana da espada