domingo, 9 de maio de 2010

A ROSA E O PINTOR

Hoje em algumas partes do mundo celebra-se o Dia da Mãe, para as minhas comentadoras que o estão a celebrar, “vejam” como o celebrei em Viena de Áustria, há dois anos, numa altura em que o meu corpo andava por lá e a minha alma por cá…
Fui buscá-lo a um post que publiquei no início deste meu blogue.

PARA TODAS UM FANTÁSTICO DIA DA MÃE !

Viajei um pouco pelo mundo, muito menos do que sempre desejei, uma coisa no entanto é certa, de quase todos os lugares que visitei e visito nas minhas loucas viagens, trago um cheiro, uma emoção, um gesto, um acontecimento... que me desperta o recordar desse mesmo lugar. De Viena de Aústria trouxe algo.
Visitei-a pela 1ª vez em 2008, comemorei com os austríacos o Dia da Mãe, o deles, que difere na data do nosso, em 7 dias.
Nesse dia, que coincidiu com o dia de regresso ao lar e ao braços da família, com bastante tempo livre pela frente, para fazer o que me apetecesse, decidi dedicá-lo a uma visita ao Palácio de Belvedere, para apreciar uma exposição temporária do pintor Kokoshka de quem um amigo me tinha falado com bastante entusiasmo. Confesso que sou um pouco retrógrada em relação aos pintores impressionistas mas não me esquecerei jamais desta exposição, nem do acto que precedeu a visita.
Logo à entrada, numa altura em que a vida já estava a amaciar a minha aparente dureza e a metamorfosear-me num ser mais crente na gentileza, um jovem austríaco impecavelmente fardado, com uma vénia perfeita e bem ensaiada, ofereceu-me uma rosa amarela, disse uma frase que não entendi mas que me fez sentir tão "especial", tão única, tão feminina, tão mulher e mãe.Ele fazia o mesmo a todas as senhoras com idade para serem mães, mas eu senti como se aquele pequeno grande gesto me fosse exclusivamente dedicado, o meu ego ficou opado de orgulho por ser mãe e emocionei-me muito com esta homenagem, tão singela mas tão significativa.
Quanto ao artista Kokoshka, foi uma revelação, na sua obra, mais de 100 expostas, revela um traço em que o retrato predomina, ele transmite para a posteridade a mulher real, a mulher sem traços perfeitos, a mulher com rugas, a mulher despenteada, a mulher com barriga, a mulher.... Os esboços de nus e não só, aparentam uma leveza que parecem fáceis, consegui "vê-lo" com mãos suaves a colocarem no papel o que o seu espírito criador sentia. O seu amor por Alma Mahler é visível em várias obras e fiquei de tal modo extasiada com as suas criações que não senti o decorrer do tempo e o que tinha disponível para me manter na exposição esvaiu-se.
Resta-me a recordação, o desdobrável e a rosa seca...
***********

Vou fugir, sinto necessidade disso e desta vez afastada de um computador, volto para a próxima Doçura ou Diabruras e com alguns relatos da minha passeata…
Para todos o desejo de uma EXCELENTE SEMANA!
OBRIGADA POR ESTAREM COMIGO! LEVO-VOS EM PENSAMENTO E NO CORAÇÃO.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

DOÇURA OU DIABRURA XXIX

Xiiiiiiii! O tempo não corre, avança a galope…
Mais um fim-de-semana que chega!
Mais DOÇURAS OU DIABRURAS.
Cá vai!



“cinco horas

ajoelhei a teus pés
pedindo que me saciasses
a fome deste desejo
que nos teus seios
é sempre um dia dos namorados
como se em cada passado
nos oferecesses o segredo
do presente
que tínhamos de abrir
na fantasia
de que tudo é dado
com a ternura
do infinito da incerteza
de não saber já se existes
ou és mais uma insensata
criação
do meu desejo de te amar"
Miguel Barbosa, in A Eternidade de um Segundo Amor
*********
PARA TODOS A MINHA TERNURA NOS VOTOS DE UM BOM FIM-DE-SEMANA!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

RELATÓRIO DE QUEIXAS

Na sequência do post de ontem, não resisti a dar-vos a conhecer o relatório de queixas feito pelo meu filho e colocado no nosso espelho de entrada da casa de Lisboa. O cão referido no relatório é o Phoebus, o queixoso adora animais e gostava deste em especial, o que escreveu sobre ele foi para se exibir (tinha catorze anos…que saudades!)


Relatório de Queixas

A Ana Rita (…), chegou a casa pelas dezasseis horas e trinta minutos, do dia dez do corrente mês de Novembro, do ano da graça de mil novecentos e oitenta e dois. Após ter penetrado no nosso humilde lar a correr, recusou-se a tomar o lanche, afirmando que V. Ex.ª lhe tinha dito que mal chegasse a casa, fosse de imediato passear o animal irracional que na presente época se encontra instalado connosco. Esteve mais de trinta minutos nos terrenos anexos ao nosso bloco habitacional, o que eu, (…), nascido em dezanove de Fevereiro de mil, novecentos e sessenta e oito, filho de Vossa Excelência e do Excelentíssimo Senhor (…), penso ser demasiado, visto tratar-se apenas de um passeio de um (se me permite a expressão) rafeiro pulguento e com a agravante de lhe ter sido chamada por várias vezes a atenção. Seguidamente, ao chegar a casa não lavou as “patas” e não permitiu que lhe desse de comer. O mais repugnante de tudo é que aquela fedelha ranhosa, rabugenta, estúpida, refilona, que diz ser sua amiga, esteve cá em casa. Mandei-as fazer o trabalho de casa, disseram-me que não havia, mas eu descobri que havia. Por fim a mãe da Rita Sofia telefonou para cá a dizer que a filha não devia ter vindo para cá, etc., etc., etc.
Sem mais
(…)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

EU PERGUNTO, ELA RESPONDE!

*Lembraste do dia em que viste a Kitty pela primeira vez?

** Como podia esquecer? Era o meu 9º aniversário, fui almoçar a casa e no meu quarto estava um cesto de verga com um enorme laço vermelho. Não percebi bem o que era… Espreitei e vi a nossa Kitty! Como fiquei feliz!

*Hoje sabes porque te foi oferecida… Queres contar?

** Eh, eh… se bem me lembro foi para me tornar mais responsável! Para saber tomar conta dela, aliás com ela veio um postal com o “recado” e “instruções”. Caso não desempenhasse bem as minhas funções de dona, ela seria “devolvida”.

*É claro que nunca a devolveríamos…Em situação de “recurso” “dávamo-la” ao teu irmão.

**Pois, mas a "desgraçada" já tinha tido três donos! Recordo-me de dizerem que tinha estado em casa de um sapateiro, mas que lhe roía os sapatos dos clientes, foi devolvida… Depois esteve com duas irmãs que andavam à bulha por causa da cadela, foi devolvida… Também teve uma dona ausente, passava o dia sozinha em casa, ladrava muito, os vizinhos queixavam-se, foi devolvida… Lembro-me que a dona da mãe da Kitty, telefonou logo no dia a seguir a perguntar se estava tudo bem!!! Os telefonemas repetiram-se semanas a fio:) Neste caso à quarta foi de vez!

*Posso afirmar que foste uma excelente dona! Levava-la à rua, sem ser preciso lembrar-te, preocupavas-te bastante com ela…

** Pudera! Depois da licenciatura, mestrado e até doutoramento que tirei com o Phoebinhos… Levava caderno e lápis e apontava as vezes que fazia chichi e cocó e não eram poucas!

*Eras tão engraçada a fazeres isso! Ele estava à nossa guarda enquanto a nossa querida Maria Odete viajava…Ele adorava-te! Adorava-nos!
O que pensas que a Kitty sentia em relação a ti?

** Venerava-me!

*”Presunção e água benta cada um toma a que quer”…
O que sentes tu, ainda hoje, em relação à “nossa” Kitty?

** É a cadela da minha vida! Foi minha companheira, amiga e até confidente! Quando eu ficava amuada e fazia beicinho, agarrava-me a ela e dizia que só ela era minha amiga, só ela é que me compreendia… Era meiga, asseada e super inteligente! Quando o F. (na altura meu namorado, hoje meu marido), se despedia e dizia “até amanhã” ela levantava-se num ápice pois já sabia que ia à rua! Acompanhou-me até ao último ano da faculdade… Tal como a tua gata Leta, viu-me crescer!

*Mas um dia teve que partir…

**Foi em Janeiro de 1996. Ela, que era tão gulosa e comilona, nesse dia não quis comer nada… Como os bichos pressentem a morte… Eu estava no quarto a estudar, tu chamaste-me e ao pai, e os três vimo-la despedir-se de nós… No dia seguinte, lá fomos com ela para o Jardim Zoológico…
Lembro-me que na altura, a dona do Phoebus, me ofereceu um bonito e singelo texto sobre a “partida” de um cão, de onde retive a seguinte frase: “O melhor lugar para se enterrar um cão é no coração do seu dono.” E é no meu que ela está!


OBRIGADA FILHA POR TERES ACEITE O MEU DESAFIO!

Nota: Aos que me visitam, só de vez em quando, devo explicar que este texto foi escrito a “duas mãos e um dedo” (como já disse ao Carapau) e o dedo foi o meu…
No comentário que a minha filha fez ao post do dia 3, falou na Kitty e eu lancei-lhe um desafio… este é o “produto” desse desafio.
Foi a nossa “primeira vez”, se gostarem, estou a falar por mim, vou tentar que ela colabore comigo num texto ficcionado.

terça-feira, 4 de maio de 2010

PARTILHANDO

Refúgio, 17 de Julho de 2008

Jorge M.F.C.

Nunca lhe escondi que a sua existência, porque sempre existiu, não me correspondi com um ET, é do conhecimento de familiares e amigos. Alguns com muita ternura aconselharam-me a ter cuidado, outros, com uma certa aspereza, diziam que devia ter juízo, que o que estava a fazer não era próprio de uma pessoa como eu, outros ainda queriam saber “novas”.
A nenhuns dei a ler a nossa troca de correspondência, não porque sinta vergonha do que escrevi mas, por uma questão de preservação de intimidade.
Às que têm companheiros, confessei-lhes que era um jogo perigoso, e que o envolvimento a que me estava a entregar, era demasiado forte. Fi-las compreender que se estivesse na situação delas nunca o faria, porque tal iria necessariamente ”mexer” com a vida afectiva.
Sei que isto lhe fez sempre muita confusão, nunca percebi porquê.
Dei pelo seu “afastamento” pouco antes da viagem à Aústria. Como homem educado, que penso que é, fiquei desiludida, quando cheguei e não encontrei um “bilhetinho” a saudar o meu regresso.
Para abreviar, nos finais de Junho encontrei-me com um familiar muito próximo, que não via há cerca de 2, 3 meses.
No meio da conversa animada, que normalmente temos, pergunta-me ele: “ a……(mulher) disse-me que andas muito entusiasmada com um amigo colorido, quero saber pormenores.” (……)
Interrogatório cerrado, descrições para aqui, pormenores para ali, risadas e admoestações e como um raio que fulmina, sem se esperar, aconteceu o que eu jamais pensei que podia acontecer, ele reconheceu-o, pormenores como o minha atracção por barbas, o nome Jorge e restantes iniciais,… convive bastante consigo, é seu amigo (?) sabe imenso da sua vida profissional e pessoal.
O seu mau momento deduzi deve-se, principalmente, a instabilidade financeira. O meu primo nunca me irá trair, mas eu, ainda com uns restos desta lealdade que sempre me caracterizou, por duas ou três vezes, tentei comunicar consigo pelo telefone proibido (?) para lhe dar conhecimento da situação. Esqueci-me que durante alguns fins de semana a sua filha está consigo. Respeito muito as famílias, e procurei compreender a sua reacção, mas isso não lhe dá o direito de me insultar, cobardemente, por escrito, pensando que estava protegido pelo anonimato. Podia tê-lo feito oralmente, teve medo?
Aconselhou-me a ter juízo e isso aceito e agradeço, passei a ter tanto juízo que resolvi usar os conhecidos e amigos que tenho para o tentar compreender e conhecer melhor. Neste momento, conheço grande parte da sua vida através de testemunhos e até de documentos. A direcção para onde vai esta carta é uma das provas disso.
E aqui vão outras: 23 de Dezembro de 19**, Ferreira do Alentejo, viúvo (?) ……E quem me tem fornecido estes dados, nem sequer o conhece.
Tive é certo uma outra fonte de informação, para poder confirmar se não estava a imiscuir-me na vida de pessoa errada.
Não fique, no entanto, preocupado porque, sei que não devo, não quero, nem fazia sentido, usar estes conhecimentos (em quê?) e outros que não referi. Servem apenas para o que eu precisava, sou mulher com pés assentes na terra, no meu chão, durante uns tempos a cabeça separou-se do corpo e andou pelo ar, já regressou para meu conforto espiritual e para a minha tranquilidade diária.
Pergunto o porquê de me deixar sofrer por si pensando que estava doente, que a sua família não estava bem, …. ? Foi duma crueldade que eu ingenuamente, mesmo depois de muito avisada, nunca pensei que existisse. Hoje não tenho dúvidas, os “mundos” em que nos movimentamos são muito diferentes e ainda bem, odeio a maldade, a má educação, os juízos precipitados, a cobardia, o anonimato, a falta de verticalidade…….
Para não dizer que eu também estou “escondida”, quando quiser saber quem sou, na realidade, é só perguntar, dou-lhe o meu currículo completo e com comprovativos se achar necessário.
Os meus medos iniciais, para além dos que já conhece, tinham razão de ser, não porque tivesse medo da opinião “pública”, mas por estar numa posição que não procurei, por ter medo de sair magoada, por sentir no meu íntimo que era uma coisa que não devia fazer. No meu subconsciente sabia que não devia entregar a minha “alma” a um homem desconhecido, mas estava a ser invadida por um forte bem-estar que adoçava a fase má de vida que estava a atravessar. Não me arrependo!
Pergunto-me: porque não aplica a sua vasta cultura de um modo mais produtivo, mais digno? São poucas as mulheres que têm capacidade para acompanhar os seus conhecimentos? Lembro-me de Stefan Zweig que tanto admira e sobre quem fez um texto excepcional, que escrevia duma forma, para a qual não tenho palavras, sobre mulheres, ele “pensava” como uma mulher. É o que acontece consigo por isso conseguiu “conquistar-me”?
Fico grata por ter-me ajudado a despertar a minha sexualidade, sinto-me uma mulher mais completa, voltei a sentir-me adolescente, regredi e isso dá-me prazer, mas não sou, nem nunca serei uma pessoa que precisa de marcar encontros através da internet, para encontrar um companheiro, isso é próprio dos “calcinhas” e das mulheres de um nível a que decididamente não pertenço, nem quero pertencer.
Quem é o Jorge para querer resguardar tanto a sua “vida”?
Ainda pensei que fosse uma figura pública com medo de alguma chantagem futura.
O que o levou a querer saber tanto sobre a minha intimidade e a não “dar nada”?
Que problemas de consciência o atrofiam como homem?
Quem foi a pessoa que o tornou tão pouco crente na honestidade dos outros?
Quem o ensinou a julgar e a condenar sem ouvir razões?
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Poupe-me e não seja criança ao ameaçar-me com a desactivação do “nosso” endereço do e-mail. Para que conste, tenho outro endereço seu, cedido pelo meu primo. Fique descansado que jamais o utilizarei.
Lamento ter enviado para o lixo parte da nossa correspondência, principalmente a inicial. A que resta, está impressa e arquivada, em dossier a ela dedicado, para que eu a possa reler e me lembrar o quanto fui imprevidente e que, como tão sabiamente diz, não fui muito ajuizada. Servirá também para passar um testemunho aos meus netos, quero que eles conheçam o meu melhor e o meu pior. Se pude partilhar consigo fases boas e menos boas da minha vida, eles de certeza serão mais dignos de tais confidências e compreenderão muito melhor as minhas motivações.
Ao reler as nossas conversas, as palavras lindas que trocámos, a sintonia de pensamentos e sensações, o jogo de sedução, … penso se da sua parte não terá sido tudo premeditado? Quero acreditar que não. O que é que mudou, o que é que eu fiz para que se voltasse contra mim e me considerasse abominável? Não, decididamente não o sou, a minha consciência disso não me acusa!
Em qualquer altura, se quisesse, mas não quero, podia encontrá-lo pessoalmente, nomeadamente, no seu local de trabalho, bastaria pedir ao meu familiar para me levar até lá e apresentar-nos.
Saí do limbo que era a situação que mais me confundia, desejo-lhe que saía rapidamente do sufoco em que se encontra, eu através de terceiros irei acompanhando o seu percurso de vida e ficarei muito feliz se souber que arranjou uma companheira digna de si. Não a procure na internet, parta do conhecimento duma mulher real, com defeitos e virtudes e com a qual “sinta” as três parcelas da tão falada adição.
Penso não ter usado as mesmas armas que usou para me “despachar”, se fui injusta, depois de meditar bem e lhe restar algum respeito por alguém que sempre lhe foi leal, perdoe-me.
Com todos os seus defeitos, quem os não tem, continuo a sentir por si ternura e terá sempre um lugar reservado no meu coração.
Ouvir “Take this waltz” ainda me causa rubores.
Na minha idade o caminhar dos ponteiros do tempo não é benéfico. Há que não atender aos efeitos nefastos da impaciência, tão bem descritos por George Stneir. Sou forçada a ser impaciente!

Despeço-me, lamentando que não possamos partilhar uma longa e saudável amizade.
Maria Teresa
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NOTA: Esta carta foi enviada a quem de direito quase há dois anos, reparem na data, hoje estou a dá-la a conhecer a todos vós, porque penso que merecem conhecer o meu lado "ingénuo" de mulher muito fragilizada, numa determinada época da minha vida. Com ela esperava apenas e só, um pedido de desculpas que nunca chegou...
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Obrigada C. pela tua frontalidade, talvez tenhas razão mas não estou ressabiada, estou "vacinada", já não a posso "retirar", não seria correcto da minha parte ... Aceito o que possam pensar de mim...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

VIOLETA

A minha primeira recordação é a de ser transportada num cestinho com um pequeno ramo de flores perto de mim. Fui apresentada a uma jovem senhora que exclamou: Violetas! Obrigada meu querido!
Gentilmente as suas mãos seguraram-me e aproximaram-me do seu corpo, era um corpo estranho, diferente … pois era magra mas tinha um abdómen enorme. Virou-me para espreitar o meu e disse: Violeta! É uma “violeta”!... E Violeta fiquei. O meu coraçãozinho bateu mais depressa, senti ternura e amor naquela sua frase … apaixonei-me por ela!
O tempo passou mas não muito, o seu abdómen desinchou de um dia para o outro e apareceu lá por casa, uma bolinha de carne que emitia uns vagidos, uns sons que eu nunca tinha ouvido, era estranho para mim, muito estranho mesmo…
Aos poucos fui sabendo que aquela “coisinha” era um filhote humano, para ser mais precisa, uma filhota. Comecei a gostar daquela trouxinha de roupa e, a pouco e pouco, tomei-a como sendo também minha. Quando a trouxinha choramingava eu corria apressada e aflita até junto da jovem senhora e “dizia-lhe”.
A filhota começou a ficar cada vez maior, deixou de estar sempre na cama, começou a movimentar-se sobre dois membros como a minha dona e a emitir sons diferentes, cada dia mais diferentes, eu deixava que ela me acariciasse, por vezes, até me puxava o rabo, eu encolhia-me um pouco, protestava mas não fugia… até que um dia essa menina virou-se para mim e disse: Leta! A partir dessa altura deixei de ser Violeta e passei a ser a Leta, Leta para sempre…
A paixão que tinha pela minha dona não era nada comparada com a que sentia por esta criança que crescia, crescia, crescia, … Assisti a todos os momentos importantes da sua vida, permiti que ela visse os meus filhotes nascerem. Sim! Tive muitos filhos! Alguns continuaram a viver comigo, outros foram viver para casa de amigos da minha dona e outros morreram à nascença. Quando eles morriam acabados de nascer eu pensava: sou uma má mãe, não sei ajudá-los a saírem de dentro de mim, nem a comer a placenta a tempo de os deixar respirar…
A partir de uma dada altura, quando a minha natureza me pedia para ter um companheiro, passaram a não me deixar sair para o quintal, ouvia constantemente dizerem: atenção! Fecharam a porta? … Cuidado! Não deixem a Leta sair!
Não me importei muito, já tinha cumprido o meu direito e o meu dever de ser mãe…
Vi partir os meus filhos… eu sobrevivi-lhes, vivi com os humanos até a paixão da minha vida ser uma estudante universitária, eu sabia que ela ia ser professora. Quando era ainda bem pequena tentou ensinar-me a ler, nisso não alinhei, por muito apaixonada que estivesse, para mim seria uma cedência muito grande…paixão tem limites. No entanto, fui boneca, fui confidente, fui companheira de brincadeiras, … vi-a e ouvi-a rir, chorar, cantarolar, segredar, refilar…

Até que um dia, chegou a hora de partir para onde hoje me encontro, vim feliz…e aqui estou para toda a eternidade, junto dos meus iguais, andamos soltos por campos pejados de flores e sombras, brincamos muito, não precisamos de ser alimentados, não temos nomes, todos somos apenas… gatos!

Texto publicado no âmbito do desafio PAIXÃO para Fábrica de Letras

domingo, 2 de maio de 2010

MAMAN

Foi em Ottawa (Ontario) no Canadá, que me coloquei por baixo desta estranha mas irresistível e fantástica escultura, à qual Louise Bourgeois sua criadora chamou Maman. É de dimensões apreciáveis como podem comprovar, comparando-a comigo. Reparem como o abdómen se encontra repleto de ovos!

No dia em que em Portugal se comemora o dia da Mãe, lembrei-me desta obra de arte tão bela no que de tão feio tem um aracnídeo, este parece ter descido por um fio suspenso da sua teia entrançada no céu. Não resisti em partilhá-la convosco.

Através de declarações feitas por Louise, fiquei a saber que todas as suas obras de arte escultórica tiveram como inspiração a sua infância. A Maman não fugiu à regra, é uma imagem emblemática da própria mãe, Joséphine, que restaurava tapeçarias, numa empresa familiar de restauração. As enormes e delgadas patas arqueadas da aranha, terminando em ponta, assemelham-se às agulhas de coser, o corpo em espiral faz lembrar as bobines de linha e a dupla hélice de fio genético relembra o laço entre gerações. O abdómen da Maman retém, à semelhança de uma gaiola, vinte ovos em mármore branco que exprimem o papel protector e nutritivo duma mãe.


Louise afirmou numa entrevista: “(…) A minha mãe era a minha melhor amiga… responsável, inteligente, calma, apaixonada, racional, delicada, subtil, indispensável, transparente e útil como uma aranha”

A Maman tem a bonita altura de 9,27 metros e pesa apenas 6 toneladas… Foi “criada” em 1999 mas o seu “acabamento” apenas se deu em 2003, sendo adquirida pelo Museu de Belas Artes no ano seguinte.
Foram precisos cerca de uma dúzia de especialistas em colocação de objectos de grande porte e duas gruas para instalarem esta elegante criatura de aspecto gótico…
Nas patas vêem-se as marcas da soldadura, como se fossem cicatrizes, o corpo está ligeiramente descentrado, faz lembrar um ser meio animal, meio máquina.
Toda esta sua aparência, uma característica excêntrica que lembra de certo modo Mad Max, atrai os espectadores que se deslocam, tal como eu o fiz, para o espaço delimitado por esta aranha. No fundo fui atraída por ela física e psiquicamente.

Não o podemos negar, é um MÃE!