segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O MEU VELHO


Vi-o pela primeira vez em Outubro de 1973, bem destacado, encostado a uma parede da Sala de Exposições, do Palácio Valenças em Sintra. Foi amor à primeira vista, não o trouxe nesse dia para casa, porque quem o imaginou, pintou e o baptizou de "Inverno da Vida", o Mestre Domingos Saraiva (1908-1994), me pediu para o deixar lá mais uns dias, até ao fecho da exposição. Acedi mas um pouco contrariada.

O que me atraiu e o que me atrai nesta figura de velho?
Porque o coloquei em destaque, num espaço da minha casa a que, pomposamente, chamo o “meu” Jardim de Inverno?

O copo na mão que imagino cheio de aguardente, emborcada em movimentos ritmados ao longo de grande parte de uma vida, que se foi degradando com o passar dos anos, com o perder das forças, com o abandono a que foi votado, com a falta de amor… faz-me doer a alma!
O seu ar de derrotado, a barba mal cuidada e a falta de higiene… faz-me nascer um desejo imenso de querer cuidar dele!
Não vou permitir que mais ninguém o maltratre, quero que veja como gosto dele! Quero que sinta que é compreendido e que é amado! Sento-me no sofá azul, entre as plantas, num frente a frente, a olharmo-nos nos olhos, confesso-lhe os meus pensamentos, as minhas dores, as minhas lutas, as minhas conquistas, as minhas derrotas, as minhas alegrias, as minhas angústias, os meus sonhos, os meus momentos de felicidade, … olha-me com uns olhos onde ainda há alguns resíduos de compreensão e escuta-me,… devolve-me um olhar doce, pleno de cumplicidade ….
Nunca me repreendeu, nunca me aplaudiu, mas escuta-me atentamente. Ele é o único homem em quem confio, entre nós há uma enorme compreensão, sei que me vai sobreviver e que jamais revelará quem eu sou no meu todo, todo esse, até desconhecido para mim…



Texto publicado no âmbito do desafio VELHICE para Fábrica de Letras

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RESCALDO

O meu fim-de-semana? Espantoso! Fantástico! Maravilhoso! Mas não do modo como me o desejaram!

Existiu um pequeno, enormíssimo senão…
Em menos de 24 horas tive que tomar dois comprimidos de Clonix, logo eu que abomino, odeio fármacos. Se não os tomasse os meus “5 sentidos” teriam ido para o fim do mundo e a única coisa que sentiria era dor, dor à volta da órbita direita e nos seios perinasais.
E porquê essas dores? Porque na 2ª feira passada quando fui completar a “obra” iniciada em Setembro, o senhor Implante que até estava muito bem colocado, ao ser acoplado a um parafuso a fim de levar a senhora Coroa, assustou-se e decidiu, naquele mesmo instante, iniciar uma viagem, sem fim previsto, pelo meu maxilar superior direito. Que horror! Dirão alguns de vós! Chiça, penico, chapéu de coco, asas de grilo, direi eu! Desculpem o meu praguejar mas tinha que desabafar…
Pois! Sua Ex.ª iniciou uma viagem supersónica que o radar não a conseguia detectar… uma aventura, uma aventura macabra, ao pé dela a Múmia, que já passou 435(???) vezes na TV, é um bebé de colo… em que os protagonistas eram o implante, o meu maxilar e o meu dentista que felizmente também é cirurgião… eu o suporte do cenário…, os espectadores, outros dentistas e higienistas, muitos interessados é certo mas com uma curiosidade um pouco mórbida, para o meu gosto. Eu não os vi, mas a Ana Rita testemunhou. Fiquei-me, pacientemente, a fazer o meu papel de olhos fechados, a pensar no que estaria ali a fazer , e se não estaria no filme errado …
Vou poupar-vos a cenas violentas mesmo para maiores de 18 anos, só vós digo que a cirurgia que se seguiu demorou cerca de duas horas, que o cirurgião saiu vencedor e que eu não danifiquei o cenário… As radiografias que me fizeram, que foram desde as normais às circulares (panorâmicas) é que podem ter danificado os poucos neurónios que ainda me restam.
Recomendações e cuidados a ter foram muitos, cumpri-os até 6ªfeira à hora do almoço…
E porque deixei de cumprir, com total obediência? Eu explico!
Há mais de um mês que esta minha fuga de fim -de-semana estava programada, envolvia-a e envolveu, um grupo de 11 amigos e incluiu uma ida ao teatro e um resto de serão passado em casa de um casal incluído no grupo.
A senhora minha cabeça, com o andar de um lado para o outro, a preparar isto e mais aquilo, zangou-se comigo… só consegui ficar mais ou menos apta, para entrar em acção, depois do primeiro Clonix.

A partir daqui posso confessar que até me diverti…após a peça de teatro divertidíssima é certo, mas da qual eu estava a ver a 3ª versão (mais ninguém conhecia a história, o que me confundiu um pouco, eu estava longe de ser a mais velha do grupo), fomos para casa do tal casal amigo, brincadeiras próprias de adolescentes no quem vai no carro de quem, antecederam a partida. Durante o resto do serão tive uma enoooooooorme conversa com o meu amigo Francisco, não levava a tal carteira, levava uma a imitar pele de tigre, muito na moda disseram-me, mas que tem uns 20 anos pelo menos (o que eu me divirto quando me dizem que eu estou in com coisas off há séculos).
O que realmente foi muito frutuoso foi o diálogo com o meu amigo, ele ajudou-me a fazer uma introspecção sobre dois assuntos que já há uns longos meses me estão a perturbar bastante, afastamo-nos um pouco do restante grupo é certo, mas os amigos perceberam e até nos permitiram uma certa intimidade, não interferindo na conversa, até a apoiando, embora desconhecessem grande parte do seu conteúdo. Amo os meus amigos, têm uma sensibilidade que lhes permite ver e sentir certas situações como esta que noutro local e noutro contexto, podia ser rotulada de falta de educação…
Nem vos digo a que horas cheguei a casa,… sei que acordei perto do meio-dia.
Ele e Ela não têm nenhuma história para contar… Tive que tomar o 2º Clonix e passei este sábado um pouco “abananada”…

Mesmo assim VALEU! Valeram ” AS PENAS”!!!!

PS- Antes que haja um matricídio, observem por favor, na coluna da direita, o lindo sêlo que a Ana Rita me ofereceu... DECLARA QUE EU SOU UMA MADAME (??) DE SUCESSO

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DOÇURA OU DIABRURA XIX

Esta noite vou p´ra night, já nem me lembro quando o fiz pela última vez, por isso inicio o meu fim-de-semana mais cedo. Mas não podia deixar de publicar as minhas DOÇURAS OU DIABRURAS




OS CINCO SENTIDOS
São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor olhos para elas:
Em toda a Natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!
***
Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede ... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão ... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!
***
Almeida Garrett, FOLHAS CAÍDAS, OS CINCO SENTIDOS (extractos)
****
QUE TODOS TENHAM UM EXCELENTE FIM-DE-SEMANA.
O CARNAVAL APROXIMA-SE VÃO TREINANDO...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

CANCRO versus ESPERANÇA

Já mais do que uma vez falei no meu braço direito, a última das quais, no post datado de 27 de Janeiro último. Talvez o dia de hoje, uma vez que se comemora o DIA MUNDIAL CONTRA O CANCRO, seja indicado para vos falar de uma fase da minha vida menos boa mas que me fez acreditar que tudo é possível quando a esperança não morre e a família e os amigos estão presentes….
Foi na minha década dourada, na década dos meus 20 anos… apareceu um negro a manchar esta bonita cor, que associo ao sol e aos girassóis que tanto admiro e de quem tanto falo…
Estávamos em finais de 1970, em Outubro, a minha querida avó Adelina encontrava-se em fase final de vida terrena, tinham-lhe sido detectadas metástases nos pulmões e sabia-se que o tumor primitivo estava localizado num braço. Um “caroço “ bem visível, desde os seus tempos de adolescência, restos de um furúnculo estupidamente espremido.
Numa das minhas abluções matinais senti um repuxar no meu antebraço direito e apalpei-o. Encontrei um pequeno nódulo do tamanho de uma ervilha. Nesse mesmo dia o Dr Fernando Cortez ia passar por casa da minha avó, para uma das suas visitas assíduas. Contei-lhe o que tinha sentido, fui observada e ele foi da opinião que todos os “carocinhos” deviam ser extirpados. De imediato combinei com ele fazer a extracção, que se realizou cerca de uma semana depois no consultório do Dr. Francisco Gentil Martins, que momentaneamente, o Dr. Cortez se encontrava a substituir. Intervenção muito simples, feita apenas com anestesia local … e o pequeno tumor seguiu para análise. Entretanto os pontos foram sendo retirados, já não me lembro por quem, nem onde.
Até que houve um dia em Novembro de 1970 em fui “convocada” para ir até ao citado consultório. Tinha a receber-me o Dr. Gentil Martins que tal como o seu nome indica, gentilmente me informou, que o pequeno tumor era um sarcoma em formação, teríamos que “matar formigas com uma bomba atómica” e esse processo iniciou-se com um internamento, uma anestesia geral e uma limpeza bastante alargada no meu antebraço, a cicatriz com cerca de 2cm de comprimento passou ao tamanho que hoje podem observar.

Posteriormente fui submetida a um tratamento de radioterapia, mais precisamente radiações de cobalto.
Tive pessoas maravilhosas ao meu lado, sem falar na família e nos amigos.
O Dr. Fernando Cortez que me confessou que se eu dissesse que retiraria o nódulo nas férias grandes (reparem que estava nessa altura em Outubro) ele estaria de acordo (esta opção teria pecado por muito tardia).
O patologista (do qual me esqueci o nome) ter ficado muito interessado no meu caso, o tumor era primário e estava em fase de “transformação”, não era totalmente maligno, coisa muito rara de se encontrar, de tal modo que ficou nos anais da patologia.
O Dr. Vilhena médico especialista em radiação que revelou um interesse imenso pelo meu caso.
A técnica da radioterapia, que me facilitou os horários do tratamento para eu não ter que faltar às aulas, fazia “batota”, colocava-me entre doentes marcados, os quais eu não prejudicava muito, a radiação embora alongada no tempo, era curta na actuação (5 minutos).
Os meus alunos que nunca sonharam sequer o que se estava a passar comigo, mas que eram uma catarse sem o saberem. Conseguia entrar numa sala de aula e estar lá, como era costume estar, atenta, paciente, alegre e competente.
Os colegas de profissão que, não falando directamente no assunto, me dirigiam piropos e gabavam o meu sorriso e a minha boa disposição.
Pedi pouco na altura, já era mãe, tinha apenas o meu filho mais velho, “pedi “ para conseguir sobreviver até que ele tivesse idade para se lembrar de mim… Hoje ao escrever estas palavras este pedido parece revelar um certo egoísmo da minha parte.
Muito mais teria para dizer… é a primeira vez que escrevo sobre este assunto, mas vou terminar aqui e agora, não sem antes afirmar que tenho muitas razões para sorrir à VIDA, preocupa-me o desamor, a inveja, a intriga, a discriminação, a intolerância, a falta de humildade, a mesquinhez …. Vou continuar a amar, a abraçar, a beijar, a acarinhar, … e a contar convosco que ultimamente têm partilhado comigo a minha maneira de ser e de estar na vida.
Cometo muitos erros, às vezes involuntários, mas procuro melhorar essas falhas para poder continuar orgulhosamente a considerar-me bastante humana.


COM ESTE TESTEMUNHO GOSTAVA DE ALERTAR TODOS PARA A PREVENÇÃO, A ESPERANÇA E A TENACIDADE. NÃO PODEMOS PERMITIR QUE A VIDA NOS DERROTE! TEMOS QUE SAIR VENCEDORAS DAS HORAS MENOS BOAS!
HÁ MAIS PESSOAS QUE VENCEM ESTA DOENÇA DO QUE AS QUE SÃO DERROTADAS… MAS APENAS NOS CHEGAM AS NOTÍCIAS MÁS …

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E SE...?

E se em Portugal exixtissem leis como estas? O que sucederia?


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

INSPECÇÃO

Na primeira e única vez que levei a “minha carroça” à Inspecção Automóvel, tive um brilhante e elucidativo diálogo com o funcionário que o inspeccionou.

CENA 1
Eu dentro do carro sobre o poço da garagem e o funcionário dentro dele por baixo do meu carro.

-Bzzzzzzzzzzzzzzzzzz
- Não percebi o que disse…
-Carregue no travão …….Bzzzzzzzzzzzzz
-Já carreguei mas disse mais qualquer coisa que não entendi!
-Rode o volante todo para a direita… Bzzzzzzzzzzzzz
-Rodei mas não ouvi o que disse a seguir.
-Rode agora para a esquerda…. Bzzzzzzzzzzz

…………….


CENA 2
Ambos fora do carro e perto do guichet onde se pagava

-Está tudo bem mas para o ano tem que vir cá em Fevereiro e não em Março
-Ora essa! Porquê?
-Porque o mês da inspecção do seu carro é em Fevereiro
-Mas o meu carro foi adquirido em Março
- Desculpe minha senhora, tem razão!
- Posso saber porque está aos gritos comigo?
- Porque a senhora é surda.
-Eu? Surda? Essa é boa!

********

A partir daqui quem o leva é o “médico” dele, o educado, prestável e competente Sr. Pedro…

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O INVERNO DA VIDA

O TEMPO, aquilo que Platão definiu como “ a imagem móvel da eternidade imóvel”, passou por Ele de um modo bastante suave, sem grandes sobressaltos. Amou, foi amado, foi feliz e semeou felicidade. Nunca esteve doente. Chorou quando nasceu, aprendeu a andar, a falar, a comer sozinho, a vestir-se, a tomar banho, a ler, a escrever, a conduzir…
Chegou um dia em que decidiu não conduzir mais, achava que os seus reflexos eram lentos e não se sentia capaz de reagir a uma situação de perigo. Tinha na altura 88 anos e tinha carta desde os 18, nunca tinha tido um acidente mas tinha tido um grande desgosto, quando uns anos antes, lhe tinham recusado a renovação da carta de moto.
Passados uns meses, pediu à filha que lhe tomasse conta das finanças, justificando que lhe faziam confusão todas as propostas que o gerente de conta lhe fazia; escusava-se a assinar um cheque dizendo que confiava nela; deixou de escrever aos parentes porque não lhe apetecia; desligou-se da escrita apenas por um motivo: tinha deixado de saber escrever. Olhava para a mesma filha e dizia-lhe: “sei que és minha filha mas não me lembro do teu nome! Tinha tanto medo que isto me acontecesse!...”. A filha, brincalhona, engolindo lágrimas, dizia-lhe sorrindo: “mas que sorte, pai! E se fosse ao contrário? Se soubesse o meu nome e não soubesse que eu era sua filha? Se pensasse que eu era uma namorada e me quisesse agarrar, eu teria que me defender e dava-se uma hecatombe familiar!”Ele sorria, mas um sorriso triste.
O tempo foi passando, os livros começaram a ficar de lado, os jornais também. “ Estou a ver mal!”, era a justificação. Foi ao oftalmologista e descobriu-se que já não sabia ler.
Deixou de conseguir fazer a barba. Via-se no espelho mas a figura simétrica da imagem confundia-o. Achava graça ser a filha a fazer-lha e perguntava-lhe: “ mas tu agora também és barbeira?” A filha dizia-lhe que sim, que era para ganhar um trocados. Quando a barba estava feita, ele queria pagar e dar gorjeta, por isso trazia sempre consigo um porta-moedas com umas moedas que ele entregava com um sorriso, um obrigado, mas ao acaso.
Na primeira e única vez que a filha teve que dar-lhe banho, chorou como uma criança.
A acção de vestir -se começou a ser orientada.
Quando um dos netos o visitava, tentava acompanhar a modernidade e dizia: “ olá, pá! Há quanto tempo é que não te via?” E o neto sussurrava à mãe ou ao pai: “O avô não faz a mínima ideia de quem sou!” Com o deslizar da conversa, todos fingiam não perceber, iam-lhe dando pistas que ele, ainda inteligentemente, sabia apanhar.
Havia perguntas que punha aos que o rodeavam: “Eu sei que há dia e noite e já soube o porquê mas não me lembro! Porque é?” Os familiares, com um certo cuidado, iam-lhe desviando a atenção. Ele disfarçava mas sofria, ainda se apercebia que algo que temia o estava a possuir.
Começou a querer “fugir” de casa e a cair muitas vezes. Foi imperiosa a necessidade de se ter um cuidado redobrado, passou a andar com uma pulseira de identificação cravada para não a conseguir arrancar, isso confundia-o. Embora já não soubesse ler horas, exigia o uso do relógio.
O neurologista avisou os familiares: “De um dia para o outro vai deixar de saber andar...”. E assim foi. Andava, mas amparado, soube sempre movimentar os pés.
Tinha então 90 anos mas um belíssimo aspecto físico. Parecia ter menos 10!
A partir daqui, até aos 93, regrediu no tempo e ficou bebé. Usava fraldas, a comida era-lhe dada à boca, mas sabia mastigar. Sempre tomou banho na banheira, porque amparado por duas pessoas dava passinhos. Tinha que estar ligado por uma cinta ao cadeirão articulado onde passava os dias, incomodava-o a conversa dos que o rodeavam e, por isso, era quase em silêncio que a família e amigos lhe faziam companhia. Gostava de ser afagado e ainda se ria e tinha cócegas quando o filho lhe mordiscava uma orelha ou quando a filha lhe sussurrava palavras de amor, palavras que nunca tinha tido coragem de lhe dizer quando ele estava lúcido. Balbuciava algumas frases sem nexo, não sentiu a ausência da companheira de 65 anos de vida em comum. Foi levado pela VELHICE, transportado com a ajuda do vento até entrar numa nuvem azul, num lindo dia de Janeiro e, aí permanecerá numa eternidade imóvel…



Texto publicado no âmbito do desafio VELHICE para FÁbrica de Letras