quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A MINHA MÃE E EU

E o meu irmão! Sim o meu irmão! Escondido e bem protegido no ventre da minha mãe. Nasceria apressadamente poucos meses depois, estava ansioso por nos conhecer, sabia que ia ser amorosamente recebido.

Falar da minha mãe é-me muito difícil, não por causa da dor da sua partida, nem das saudades, mas porque não encontro palavras para a descrever…
Não me lembro de ter tirado esta fotografia mas, com a anotação feita pelo meu pai sei que tinha 5 anos e ela 25. Com esta mostra documental, todos acreditam quando afirmo que ela foi a minha mãe, a mulher que me trouxe no ventre durante nove infindáveis meses
(no dizer dela)
Dez anos depois, as pessoas que não nos conheciam, pensavam que éramos irmãs, eu cresci demasiado depressa, ela manteve-se jovem e com feitio de menina.
Desde aí passei de filha a mãe, não que ela não conhecesse muito bem o lugar que ocupava na família, mas porque era muitíssimo mimada e adorava sê-lo, as lágrimas afloravam-lhe aos olhos com imensa facilidade, amuava quando era contrariada e todos nós lhe fazíamos as vontades.
Foi muito amada, o meu pai mais velho do que ela 8 anos, idolatrava-a!
Dela só consigo descrever situações…
Não me lembro de a ver com o ventre dilatado, mas lembro-me de um casaco que ela usava (mais tarde vim a saber que era um casaco de grávida) todo aos godés e de como gostava de me meter debaixo de toda aquela roda.
Recordo o dia em que o meu irmão, bebé permaturo, nasceu! A minha mãe percorria o corredor imenso, da nossa casa de família (que saudades) , de um lado para o outro, comigo, a minha avó e o meu padrinho atrás, numa estranha procissão. Este passarinhar, que não sei se demorou muito ou pouco tempo, terminou com a chegada do meu pai e do meu avô paterno.
Era muito simpática, excelente anfitriã, adorava dançar mas cantava pessimamente, (cala-te boca que o meu “canto” afugenta todos em redor) , vê-la dançar o charleston era um delírio … nunca consegui fazer a troca das mãos e joelhos, “escangalhava-me” sempre a rir
Ela que casou com 19 anos odiava os meus namoricos, fazia-me a “vida negra”.
Amuava…fazia queixinhas ao meu pai, ele dizia: Ai sim! A malandra! – E piscava-me o olho.
Não penso nela sem a dissociar de mim, lembro-me de episódios mais ao menos recambolescos que se passavam com as duas. A minha avó muitas vezes observava mas não intervinha.
Desde muito pequena que sempre gostei muito de ler, material não faltava lá por casa, a minha mãe não apoiava todo o tempo que eu usava para fazê-lo, impunha-me tarefas, eu resolvia o assunto fugindo para a casa de banho, sentava-me na sanita e lia. Quando ela dava pela minha falta eu tinha sempre um álibi e o rabo gelado… Como ficava “brava” comigo!
A sua presença dia e noite, servindo de veículo transmissor do exterior para a minha cama de doente quando tive febre tifóide…jamais o esquecerei!
A compra de uns sapatos brancos na rua do Loreto…eu queria uns, ela queria que eu comprasse outros…o empregado teve a triste ideia de dizer: “Os que a sua mana gosta mais, ficam-lhe melhor”! Dei-lhe um berro: “Não é minha mana é minha mãe!”
Não escondia a idade, pelo contrário, por vezes, ainda faltavam meses para o seu aniversário e já lhe acrescentava um ano. Adorava que lhe dissessem que parecia muito mais nova!
Mudava de fatiota pelo menos duas vezes por dia, sempre foi assim, e isto tornou-se um pesadelo quando ficou muito idosa, o guarda-roupa, mal eu voltava costas, era literalmente espalhado pelo quarto, tarefa executada pelo meu pai, para ela escolher a vestimenta que queria usar para ir à rua ou para se sentar à mesa.
E a loucura por chapéus, boinas e afins
(tenho a quem sair) !
As nossas idas, apenas as duas, ao São Carlos…
Como ficou zangada por eu ter ido, na véspera do meu casamento (casei a uma segunda-feira), sozinha ao teatro com aquele que no dia seguinte se ia tornar e se tornou o pai dos meus filhos…
Tanta, tanta partilha, mas nem eu nem a restante família tem dúvidas, desde a minha adolescência que o “ombro de mãe” era o meu e não o dela!

domingo, 9 de janeiro de 2011

UM LIVRO

Era uma vez um livro, não é assim que começam todas as histórias… um livro que me foi depositado nas mãos pela amiga, irmã mais velha, conselheira, cúmplice de boas e menos boas horas e das partidas que pregávamos… a muito querida Maria Odete.
Quem connosco privava sabia que por muito triste que chegasse perto de nós, partiria com um sorriso nos lábios e provavelmente com a ideia de que éramos tontas ou irresponsáveis.
Abri-o e na primeira página tinha e tem uma dedicatória, escrita numa letra muito bem desenhada, a bonita letra dela, com meia dúzia de palavras, que dizem tanto e que me ajudam a continuar a eternizá-la no meu coração, embora tenha partido numa viagem sem retorno há mais de uma década.
Por baixo dela escrevi uns anos mais tarde: “Obrigada AMIGA pelos conselhos que sempre me deste. Foste a irmã mais velha que não tive, lamento não te ter “aproveitado” mais tempo (20 de Novembro de 1997)”
A partir dessa página o livro estava em branco. Era um LIVRO BRANCO.



Era, disse bem! Já não o é!
Bernard Shaw quando indagado sobre quais seriam os cinco livros que levaria para uma ilha deserta, respondeu que levaria cinco livros em branco.
Ao longo de vinte e oito anos fui registando nele todos os meus anseios, desejos, afectos, sonhos, … nele arquivei notas*, recados, queixinhas**, … do meu marido*** e dos meus filhos. Nunca o escondi, esteve sempre num lugar bem visível, até que um dia… alguém muito próximo de mim o profanou, não se limitou a lê-lo, mandou-o fotocopiar e usou essas fotocópias mostrando-a a pessoas que não me conheciam na intimidade.
A partir desse malfadado dia as histórias nele depositadas passaram a revelar raiva, dor, impotência, vingança, desprezo… Sofri com isso!


Hoje o livro está “pronto”, não tem mais espaço para ter mais histórias…


*http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/2009/11/por-incrivel-que-possa-parecer-o-unico.html

**http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/2009/10/comsem-posicao.html

***http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/2009/10/tal-como-foi-explicado-aqui-tambem-este.html

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DOÇURA OU DIABRURA LXVI

As DOÇURAS OU DIABRURAS estiveram de férias, entraram num repouso merecido durante a quadra das grandes festividades e grandes consumos (para alguns) e estavam relutantes em voltar, tive que me empenhar seriamente para elas saltarem do remanso em que se encontravam e visitarem este cantinho. Fizeram-se caras as marotas! Mas conseguimos estabelecer um acordo de “cavalheiras”.


ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira (1988-1968)

DEPOIS DE DOIS FINS-DE-SEMANA BASTANTE "ANIMADOS" E ALARGADOS...DESEJO A TODOS QUE ESTE, QUE HOJE SE INICIA, SEJA MUITO CALMO E QUE SIRVA PARA ALGUMA REFLEXÃO...

PARA TODOS OS MEUS BEIJINHOS EMBRULHADOS!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

IMAGINAÇÃO DELIRANTE

Voltei a estar com maior assiduidade no meu apartamento citadino e a retoma a velhos hábitos depressa se instalou. Ontem ao entardecer, o entardecer de um dia em que apanhei uma molha que me molhou mesmo, depois de um duche revigorante, instalei-me no meu jardim de inverno” com um livro nas mãos e uma chávena de chá de jasmim, bem quentinho, sobre a mesa de apoio. Agi de modo diferente, coloquei o sofá de costas para “o meu velho” e, em vez de reiniciar a leitura do livro que ando a ler há mais de três dias, dei por mim a observar os prédios em frente. Prédios bem visíveis, as árvores que nos separam estão totalmente libertas de folhagem e estendem os seus ramos esquálidos como que a pedirem-me ajuda. Brevemente vão ficar pesados cobertos de folhas - disse eu baixinho.

Alguns andares sem iluminação, fizeram-me crer que os seus habitantes ainda não tinham regressado, noutros luzes filtradas pelas cortinas davam um certo ar étereo à casa, outros bem iluminados expondo todo o conteúdo de cozinhas e salas, … Sentindo-me também exposta, mantive-me no meu posto de observação cada vez mais “disfarçada” com o avanço do anoitecer e a chegada da noite.
A minha imaginação entrou em “delírio”, com ela iniciei uma meditação que me fez rir sozinha, meditei formulando hipóteses sobre as vidas que por lá pululam.


-Aquele é “machão”, a fêmea está na cozinha e sua excelência está na outra divisão a ver televisão…
- Deixaram a luz acesa e não se vê ninguém…será que estão a fazer o que eu já fiz, a tomar um banho revigorante?
- Ainda não chegaram a casa, estarão no trabalho ou foram jantar noutro local,…
-Será que ninguém se está a amar, neste instante…
-Aquele ali junto aos vidros estará a pensar no próximo Verão….
-A criança está chorando magoou-se ou foi admoestada…
- E se, tal como na “Janela Indiscreta” de Hitchcock , eu vou assistir a um crime…
- Estarei também a ser observada, não é possível, estou às escuras, mas sempre vem uma certa luminosidade dos candeeiros da rua…
-Só uma janela tem enfeites de Natal…hummmm…porque será…


(…)


Não! Penso que não! Ainda não devo ter enlouquecido!
Mas de médicos e loucos todos temos um pouco
!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

AMIZADE VIRTUAL

Nos dias de hoje constroem-se “amizades” através da virtualidade? Acredito que sim! O contacto com pessoas que nunca “vi” faz-me rir, chorar, pensar, reflectir, sonhar,…
O coração aperta-se quando sinto que do outro “lado” está um ser em sofrimento ou alegra-se quando sinto que o outro alguém está passando excelentes momentos de vida.

Este “tipo” de amizade constrói-se com pequenos momentos, aqueles que passo a ler os vossos textos, os vossos comentários, os vossos e-mails, …São pedacinhos de tempo que vivo convosco, sem vos conhecer fisicamente, mas posso idealizar-vos…e idealizo. Não é importante medir este tempo, importante sim é a qualidade dos pensamentos, dos afectos, dos saberes, das experências que trocamos…
Com a “amizade virtual” aprendi a gostar de pessoas sem as julgar pela aparência física, como algumas vezes o faço inconscientemente.
“Foi o tempo que passaste com a tua rosa que a tornou tão importante”(Saint-Exupéry). O tempo que passo com cada um de vós aqui, torna-vos muito importantes … tão importantes que, se neste momento, deixasse de vos contactar, sentir-me-ia infeliz.


Sinto-vos perto mesmo que estejam muito longe…

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

SEM BALANÇO

No início de 2010 fiz um balanço do ano de 2009, no início deste 2011, decidi que 2010 fica sendo um ano … sem balanço. Decidi, está decidido!
Vou olhar em frente, sem projectos a longo prazo, vivendo o dia-a-dia procurando contemplar com os olhos bem abertos todas as coisas belas que a VIDA me pode proporcionar…

Quero sentir a chuva a bater nos vidros das minhas janelas abertas para o mundo, quero sentir o sol a aquecer-me o corpo, quero ver as árvores da minha rua voltarem a ter folhas, quero ouvir o chilrear dos passáros que nelas fazem o ninho, quero ouvir as risadas das crianças que frequentam o parque infantil que existe mesmo em frente da minha porta, quero sentir o meu coração a bater de um modo ritmado, quero cimentar as minhas novas amizades, quero rir-me dos meus sonhos de mulher romântica, quero contemplar os enamorados a segredarem, …


Quero que o SOL habite a minha alma!

sábado, 1 de janeiro de 2011

UMA SIMPLES ROSA

Quando os meus pais faleceram não me despedi deles com flores, uma opção que tinha tomado há muito, em consciência e sem medo do que os “outros” pudessem pensar. Não faço a mínima ideia se fui criticada ou não, não me preocupei, nem me preocupo com tal. Pessoalmente não me sinto bem quando vejo o destino que é dado às flores que se destinam às despedidas dos seres que amamos, ficam murchando, não têm utilidade, tornou-se um hábito …

Fotógrafa: Ana Rita
Local: Refúgio

Acreditem que não o fiz por uma questão de poupança…o dinheiro que daria a ganhar a uma florista com esse meu gesto foi aplicado e com ele alguém ficou muito feliz.
Sou totalmente tolerante com que gosta de o fazer e de encher as câmaras ardentes e cemitérios com as mesmas, nem podia ser de outro modo. Eu não gosto! Mas já o fiz por ser uma medida socialmente correcta (penso que fui “falsa” mas não quis chocar os respectivos familiares)
No entanto, não podia deixar passar essas datas em vão! Que atitude tomei?
No dia seguinte ao término das cerimónias fúnebres, plantei em memória da minha mãe e do meu pai, uma planta, em datas diferentes, pois faleceram com uma diferença de cinco meses. A que recorda o meu pai, que faleceu em Janeiro de 2006, foi uma roseira, desde essa data até hoje, cinco anos seguidos, em Janeiro, ela presenteia-me com uma rosa…este ano cá está ela, registada na foto… sei que irão nascer mais rosas mas na Primavera!

É esta rosa que ofereço a todos vós, no início deste novo ciclo temporal!
Para mim é um símbolo de esperança, de renovação, … acredito que a Natureza tem mistérios insondáveis e sinto-me confortada com este pensamento.