segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DOÇURA OU DIABRURA LVI

Estive ausente dos meus lugares habituais de" circulação". E como Natal é quando o Homem quiser, eu decidi que “Doçura ou Diabrura” vai para o ar quando Eu quiser! Esta não será propriamente uma doçura, será talvez uma diabrura atendendo à intenção, ao recado com que a estou escrevendo. Para a apreciação de todos, mas com a ressalva do poema ter sido escolhido a pensar em alguém muito especial para mim, que considera José Agostinho Baptista um dos melhores poetas portugueses vivos da actualidade, aqui vai a:


CONDENAÇÃO

Não tens fuga.
Aonde quer que vás, tudo irá contigo,
cada amanhecer,
cada linha mortal do teu rosto,
cada náufrago a quem fechaste os olhos,
nos sete mares indóceis da tua vida.

Aonde quer que vás, tudo irá contigo,
abrindo outra ferida,
e numa igreja, sobre o pó,
cairás de joelhos, implorando em vão.

Não tens de olhar à volta, para a estátua que
te contempla.
Irás sem medo,
como quem conhece o vazio da alma,
como quem diz adeus à desolação das terras.

José Agostinho Baptista, in Quatro Luas



PARA TODOS UMA SEMANA QUE HOJE COMEÇA, A SER VIVIDA SEM STRESS, COM MUITOS MOMENTOS DE FELICIDADE!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

SONHANDO

Acordei ao lado da minha amiga languidez que sempre me acompanha neste despertar de noites bem dormidas. Lembrei-me do sonho e essa lembrança tornou-me ronronante!
Emiliano di Cavalcanti (1897-1976)


Observei o espaço que me rodeava, réstias de sol invadiam o meu espaço, e cúmplices do dia esplendoroso que se adivinhava, permitiram-me contemplar, em tons dourados, toda a dimensão que me rodeava. Ergui-me do leito e deixei deslizar a longa veste com que me tinha entregue nos braços de Morfeu, observei-me desnuda no reflexo do espelho que pende numa das paredes do meu quarto, buscava vestígios do sonho … não os encontrei!
Forço-me a relembrar o meu caminhar desta noite, noite alva, iluminada pelo luar. Surgiste de um lugar recôndito do meu lugar do sonho, não vinhas só, nunca vens só, acompanhava-te uma melodia que me fez desejar sentir os teus braços de amante, em redor do meu corpo… Adivinhaste o meu desejo, enlaçaste-me com suavidade pela cintura e ambos rodopiámos ao som de uma valsa de Strauss. Porquê Strauss e não Chopin ou Tchaykovsky, se não a reconheci? Sei agora que foi escrita apenas para nós, ninguém mais a tornará a ouvir, nem a poderá voltar a dançar. Repentinamente… o ritmo melódico alterou-se e o som de um tango emanou das sombras do arvoredo que ladeava o local onde nos encontrávamos… Os nossos corpos envolveram-se em movimentos coleantes, sensuais, bruscos mas ritmados … Fui submissa, de ti recebi paixão, drama, agressividade e tristeza. Mas também houve cumplicidade e sedução, … senti o calor incendiário, incontrolável, do desejo a invadir-me…

A tua figura altiva, esguia e alongada, teve que partir, foi requisitada por Morfeu para dar prazer a outra sonhadora…

Pediste-me tempo! Como te o posso dar se ele não é meu?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ETERNAMENTE

Chega no início da madrugada, vem lentamente para não me assustar. Todos os meus sentidos voam para a taça receptáculo da vida de onde emanam.
Vejo-o sem o ver… inalo o seu perfume sem o saber identificar…sinto o calor das suas mãos, percorrerem a minha pele nua, sem as sentir… provo o sabor dos seus lábios sem os provar…oiço a sua voz sussurante, como uma brisa suave de uma Primavera aquecida, sem a ouvir…
Entrego-me ao prazer de o ter ao meu lado. Miríades de luzes invadem o nosso espaço, espaço intemporal e etéreo. Acariciamo-nos e entregamo-nos ao prazer do amor… Tornamo-nos um só!
O impiedoso senhor do tempo força o sol a bater à porta do horizonte, o sol é nosso cúmplice tal como a lua em noites de luar, maliciosamente obedece mas com ternura, … o novo dia precisa de nascer!
Eu grávida de felicidade e de exaustão, enrosco-me e deixo-me abraçar pelo senhor do sonho, um abraço faternal, carinhoso, desejado, … adormeço com um sorriso nos lábios entumescidos por tanto beijar, entro sem pedir licença, num mar de calmaria que me transporta para um sono profundo, repousante e prolongado, pleno de sonhos com as cores de um campo pejado de flores campestres…
É a despedida mas uma despedida sem dor, ao raiar da madrugada eu sei que ele vai voltar.
Volta sempre!
O tempo um dia vai parar e ele ficará comigo, protegido pelo sol e pela lua, eternamente…

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

BIPOLARIZAÇÃO

BIPOLAR, uma palavra que, actualmente, se ouve muitas vezes. Será que todas as pessoas que a utilizam conhecem bem a carga psíquica que ela transporta?

Bipolar, bipolarização, não são apenas termos relacionados com a energia eléctrica, nem com a dinâmica, nem com a política, … é um termo que veio substituir a denominação “psicose maníaco-depressiva”. Esta denominação foi considerada por alguns “peritos” na matéria, como muito “depreciativa” até "pejorativa" e hoje fala-se dela como sendo um “transtorno ou distúrbio bipolar”.

Foi descrita pela primeira vez pelo psiquiatra Emil Kraepelin, no século XIX, desde então tem sido estudada e, na actualidade, há fármacos que a vão conseguindo controlar, com algum sucesso, se os portadores deste transtorno estiverem predispostos a aceitar o tratamento. A psicoterapia também dá alguma ajuda.

Como viver com alguém que umas vezes revela uma energia tremenda, tem ideias grandiosas e agradáveis, fala ininterruptamente, demonstra raiva e agressividade pelos que lhe são mais queridos, atira a ética e a moral que regem a sua vida para o “espaço”, gasta descontroladamente… e outras vezes sente-se inferior, só pensa em desgraças, sente-se culpado, pensa no suicídio…e tenta-o?

Eu sei a resposta e devo confessar que é uma tarefa hercúlea! Para manter uma família em “equilíbrio”, tendo alguém no seu seio a sofrer do modo como uma pessoa com este distúrbio sofre e faz sofrer, é algo que a maior parte das pessoas não consegue imaginar…

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DOÇURA OU DIABRURA XLV

“Um sonho não interpretado é como uma carta que nunca se chega a ler” frase que se pode ler no Talmude (um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo ).

Eu tenho um sonho que estou a “interpretar” e, com esta interpretação, desejo ardentemente conseguir ler a carta até ao fim…Perdida "nela" vivi esta semana, esperando continuar a viver, com a mesma intensidade, muitas mais…E, deste modo, cheguei a mais uma Doçura ou Diabrura, desta vez ornamentada com uma pintura de Salvador Dali


“dois anos de amor

as psico horas
da incerteza
e do medo
virá não virá
existo não existo
são os deserdados
anos da substantiva ternura
de Jacob
que esperou em vão
por Raquel
sem saber que o amanhã
é uma religião
que não existe
para além do calendário
sem datas
de uma espera
que teremos um dia de partilhar”.
Miguel Barbosa, in A Eternidade de um Segundo de Amor


UM FIM-DE-SEMANA SUPER, SUPER, SUPER,…FABULOSO!


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PASSEIO À BEIRA DA ÁGUA

A inércia que se apossa da tomada de algumas decisões, retarda ou impede a realização de alguns sonhos, tenho um sonho que cada vez está mais longe de poder ser real, gostava de ter uma casa de onde se visse água: mar, rio ou lago.
O meu Refúgio situa-se numa aldeia muito perto do mar, junto do poço comunitário vejo-o, o que quer dizer que se a minha casa estivesse 100 metros mais para oeste eu via-o. Que pena não lhe poder colocar umas rodinhas!


Ontem tive um dia em pleno, passei parte da tarde passeando ao longo de uma das margens do rio Cávado. Como já vem sendo hábito, não é defeito meu, é feitio, não levava máquina fotográfica. Ficaram-me as imagens e o dia marcados na memória. Um dia com resquícios de felicidade, de bem-estar!

Hoje, com a minha filha fiz uma longa caminhada pela minha praia, a maré estava baixa, as rochas que o mar deixou a descoberto, estão pejadas de mexilhões, percebes e lapas, nas pocinhas vêem-se cardumes de peixes minúsculos. Que belíssima fotografia se teria tirado! Eles embora muito pequenos e quase transparentes são detectados pela sua sombra…

As gaivotas por lá andavam, muitas a descansar nas arribas, quietas, muito quietas.
Outras no areal! Nada as perturba.

A praia estava quase deserta, um pescador com duas canas a postos, um
casal que sentiu necessidade de comunicar connosco, enquanto colhíamos alguns mexilhões, e mais umas três pessoas dispersas, tomando banho de sol.

Sinto-me tão calma, tão bem comigo mesma, quando faço este tipo de caminhadas…O sol, sem estar muito quente, beijou despudoradamente as minhas costas desnudas, acariciou-me o rosto!
Como não podia deixar de ser, é-me irresistível, molhei as pernas e os “panos” que as envolviam…


Voltei para casa, sentindo-me feliz por estar viva, não estar doente e poder usufruir deste tipo de passeio…
Amanhã vou repetir a “proeza”! E vou
tentar que a minha filha leve a máquina fotográfica. ..

Nota: As fotografias publicadas são da autoria da Ana Rita mas foram captadas na semana passada.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

RITUAL

No ar ainda se sentem restinhos do Verão, quando ele parte sinto uma certa melancolia que se vai diluindo com a volta de alguns rituais que estão bem arreigados em todo o meu ser, um deles é o do chá, do lanche com a mesa recheada e tempo para o saborear.
No retornar em pensamento a esta vontade de o fazer, lembrei-me do testemunho que registei num dos meus muitos escritos passados e que vou transcrever:

“A minha casa parece uma feira. A minha filha entrou para lanchar com a ninhada agarrada às saias. O lanche dos pequenotes já tinha sido servido no colégio, mas isso para eles não chegou, nunca chega, petiscam sempre delícias da mesa da avó. Toca a rectificar a mesa de chá, entretanto o mais velho, que ainda não sabe ler, expulsa-me do meu, muito meu, computador. Gera-se uma certa barafunda, o meu Refúgio é
pequeno, o espaço interior não abunda. Chega a altura das coisas se complicarem ainda mais, chegam os outros avós para os ver, mais uma alteração “na mesa”. Depois de várias peripécias a única que não
tomou o seu chá descansada fui eu!”
(11 de Abril de 2008 ).

Sorrio ao ler esta anotação. Que saudades tenho “desses chás”, só passaram dois anos, as crianças cresceram, os horários escolares modificaram-se, as pessoas mudaram o seu modo de estar na vida.

Nos tempos mais próximos, espero que curtos, vou continuar a saborear o meu chá mas quase sempre sozinha… acompanhada pelo som suave de uma música de fundo e pelos meus pensamentos.